quinta-feira, 24 de abril de 2008

25 de Abril! Apesar de tudo (2)*

Aquela velha e teimosa senhora chamada utopia
(2ª. PARTE)
Mas o que é que foi ou como é que foi verdadeiramente o 25 de Abril? Que resta dele? O que é que se perdeu e o que é que se ganhou? Como recuperar o seu sentido épico?
O 25 de Abril foi um golpe de Estado, conduzido por oficiais intermédios, os capitães, seguido de uma revolução popular, que os militares não previram nem tiveram condições de conter ou de controlar. Vitoriosos no golpe, os capitães não entregaram o poder aos generais, quebrando desse modo a cadeia de comando, e enfraquecendo drasticamente o poder político-militar, que não mais conseguiu conter os ventos da liberdade, à solta pelas ruas do país.
O povo saltou para a rua, e foi na rua que explodiram todas as tensões acumuladas na sociedade portuguesa, assistindo-se a uma enorme vaga de reivindicações sociais e políticas. Esse movimento popular discutia tudo, e tudo transformava num mar de esperanças, não aceitando outro limite que não fosse o sonho da criação imediata de um céu na terra. O poder politico-militar, esse quase sempre seguia a reboque da acção empreendedora desse povo eufórico.
O povo perdeu o medo, que respeito já não tinha, ao aparelho de repressão política do regime, cercou, assaltou e destruiu a PIDE, a Legião, a Mocidade Portuguesa e a União Nacional. Não pediu licença a ninguém e conquistou, na rua, sem que ninguém lhas tivesse oferecido, as liberdades de associação e de expressão a todos os níveis. E isto é que foi a revolução. Isto é que fez tremer todas as hierarquias instituídas, e ousou mesmo alterar radicalmente a relação de forças existente no plano salarial, das condições de trabalho, da segurança social, da contratação colectiva, das férias pagas, da liberdade de organização sindical, da justiça social, e questionou até a própria apropriação privada dos meios de produção.

O que resta de tudo isto? Sabemos que muitas das conquistas de Abril foram traídas, derrotadas, subvertidas, abandonadas, principalmente com prejuízo, e isto é que dói, do mundo do trabalho, do mundo das preocupações sociais. Em alguns domínios, de recuo em recuo, foi-se perdendo tudo. E em muitos, que viveram esses acontecimentos, e neles participaram de forma activa, surgiu a tristeza, o desencanto, o abandono, a mágoa, o cinismo até. Foram-se embora, e a política ficou mais pobre sem eles. E continua cada vez mais pobre sem eles. E quase ninguém os veio substituir.
Nem tudo foi em vão, porém. Muito do essencial foi-se. Permanece, porém, ainda algo a realçar e a ter em atenção, quer no domínio das liberdades conquistadas, quer no domínio dos direitos sociais (cada vez mais ameaçados) e políticos então alcançados, quer no desenvolvimento alcançado, quer na abertura ao mundo.
Perdeu-se muito do 25 de Abril. E, nos tempos que correm, continua a perder-se muito do que se esperou, muito do que se sonhou, muito do que se conseguiu. Perdeu-se a ousadia, a coragem e a frontalidade; perdeu-se a motivação, a espontaneidade e a sinceridade; perdeu-se a vontade, os sentimentos e as ideias; perdeu-se a paixão; perdeu-se até a esperança e a utopia..
A revolução foi uma paixão, explosão de energias incontroladas e excessivas que nos encheram a alma. Mas, naturalmente, foram-se diluindo na normalização das instituições democráticas. Tudo entrou na normalidade. Tudo ficou normal. E hoje o normal tornou-se tão assepticamente normalzinho que já é incomodativo. Morreu a revolução. Morreu a paixão. Fugiu o sentido épico duma consciência de povo orgulhoso, crente e vivo.
A paixão é sempre breve e tem de morrer, pois a sua beleza excessiva absorve-nos e vira-se contra nós. Mas esse tal sentido épico não. Deveríamos recuperá-lo, por amor á liberdade, à democracia, à participação, à consciência, à responsabilidade individual e colectiva. Sem ele, aproximamo-nos a passos largos do empobrecimento catastrófico de ideias, da diluição dos valores, da política reduzida a uma coutada de profissionais, cujos lugares se pagam ao preço da obediência e do silêncio.
Precisamos de reencontrar esse sentido épico da acção como povo. A política precisa de voltar a ser vivida por todos. Se não com paixão, que não há como a primeira, pelo menos com o amor próprio que dignifica o homem no exercício das responsabilidades que lhe competem como ser. Só assim se evitará este adormecimento castrante e irresponsável e se incentivará a fecundidade e a responsabilidade do livre pensamento, do espírito crítico e da memória crítica, cada vez mais necessários.
Esta seria a melhor forma de honrar o sentido épico que nos vem da história, dos nossos melhores pensadores e do espírito de Abril.
E o que deve dar ânimo a todos os que honradamente se bateram ontem e se batem hoje pela implantação, aprofundamento e dignificação permanente da democracia continua a ser aquela velha e teimosa senhora que se chama utopia, e que dá também pelo nome de liberdade, igualdade, fraternidade, e empenho na construção de um mundo melhor para todos, e com a participação dignificante e consciente de todos.

Só essa velha e teimosa senhora, a utopia, nos pode dar o fogo do ser.
Porque a utopia é a alma de um povo. E um povo sem alma não é povo.

Porque a utopia é a alma do homem. E um homem sem alma é cadáver.


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Notas: Continuação de 25 de Abril! Apesar de tudo, no TempoBreve; ver "notas" na 1ª. parte.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Afinal, a manifestação de Lisboa "assustou" tudo e todos

Já há muito que se sabia que a ministra da Educação tinha deixado de o ser. Ela nunca foi elemento de solução da crise aguda, que teve como vítimas os professores, pois ela mesma quis e provocou acintosamente essa crise. A crise superou-a. E ela, depois de ter sido completamente desautorizada pelos professores, acabou por ser também desautorizada pelo governo, nas pessoas do Primeiro Ministro, José Sócrates, e do Ministro do Trabalho, Vieira da Silva. Com efeito, ao entrarem directamente em cena, embora de forma clandestina, no diálogo com as organizações sindicais, acabaram por reconhecer eles mesmos a incapacidade da ministra para lidar com a situação, para ela insustentável.
Com a assinatura dum documento sem nome, que incorpora o Memorando de Entendimento, e as posições, aparentemente contraditórias, do ministério e dos sindicatos, ela ganhou algum espaço de manobra. Mas, mesmo com esse espaço, e mesmo que o saiba aproveitar bem, ela nunca mais será uma ministra da Educação aceite pelos professores. E, sendo assim, o jogo está mais viciado que nunca. É que não se enterrou o morto. E os cadáveres, quando mais andarem por aí, maior pestilento será o cheiro. Ela será sempre um peso morto germinando desconfiança e turbulência.
Cada um dos sindicatos pode também ter ganho espaço de manobra. Conseguiram sentar-se à mesa com a senhora ministra, e isso parece ser a sua maior conquista. Mas, tendo ganho o lugar à mesa, pelas cedências que fizeram - e as cedências, no essencial, foram em toda a linha -, perderam muito do capital de esperança e de confiança que os professores, muitos deles desconfiados, depuseram em suas mãos. A assinatura daquele documento foi a tábua de salvação da ministra. E foi a vitória do "enquadramento" dos professores unidos por parte dos sindicatos.
Afinal, "ganharam" todos: governo, ministra, sindicatos, partidos. Não houve quem não coantasse vitória, uns de forma mais envergonhada (caso da ministra e até do douto Sócrates) e outros de forma mais "desdentada". Foi um bom negócio para todos. Um negócio e um alívio. Já viram aqules professores à solta, sem estarem devidamente enquadrados, isto é "domesticados"?
Vitória para todos? Não. Por um lado, os professores ficaram mais ou menos na mesma. É que os "ganhos" que os sindicatos avançam, não passam de pequenas migalhas que a ministra já havia concedido, num atropelante dessassossego de quem sabia que já não podia aplicar a "coisa", não na tal forma simplificada. O tempo estava contra ela. Tinha o probema de prazos. E um problema legal a resolver. Mas aí apareceram os sindicatos a dar-lhe a mão. Mas, por outro lado, os professores ganharam. E muito. Ganharam aquela dignidade imensa de concretizarem de forma eficaz o diferito à indignação, na luta pela sua dignidade ameaçada. Enquanto tiveram a luta nas suas mãos, não se deixaram abater; quando entregaram aos "generais" as negociações de paz, aí tiveram um dissabor. Mas tinha que ser assim. Tínham que entregar as negociações aos "generais" que tinham.
Mas as coisas não vão ficar assim. Nunca mais nada ficará como estava antes. Estaremos sempre muito atentos à acção próxima-futura dos sindicatos. E dar-lhes-emos a força que necessitarem, se e quando a merecerem. Mas não vamos aceitar mais as pequeninas vitorias com que eles ficam contentes.
Isto não vai acabar assim. Poderão fazer-nos tudo. Mas não poderão nunca impedir-nos de pensar. E, ao contrário do que diz o Rangel, nós não somos nem carneiros; nem somos carne para canhão.
Hoje há manifestações? Serão para "comemorar" o acordo? Ou se´~ao já parte da luta para Julho de 2009? E durante esse tempo todo?
Ah! Os professores que aguentem mazoquistas o Modelo de Avalição que a senhora ministra tanto preza.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Lembrem-se de Pirro*

Crónica de Santana Castilho, professor do ensino superior, no PÚBLICO, 16.04.2008

É verdade que os sindicatos ganharam uns trocos. Mas o lance era para devolução integral: da dignidade perdida

Comecemos por uma questão semântica: entendimento e acordo são vocábulos sem diferenças, do ponto de vista da significação, que justifiquem o esforço da Plataforma Sindical para os distinguir. Vão a um bom dicionário. No contexto que "aproximou" sindicatos e ministério, são sinónimos. Mas se essa fosse a questão, então capitular dirimia o conflito. E não estou a ser irónico. Voltem a um bom dicionário.
Posto isto, passemos ao que importa. ministério e sindicatos acertaram, concertaram sob determinadas condições. No fim, os sindicatos cantaram vitória. Permitam-me que invoque alguns argumentos para desejar que os sindicatos não voltem a ter outra vitória como esta.
A actuação política deste Governo e desta ministra produziu diplomas (estatuto de carreira, avaliação do desempenho, gestão das escolas e estatuto do aluno) que envergonham aquisições civilizacionais mínimas da nossa sociedade. A rede propagandística que montaram procurou denegrir os professores por forma antes inimaginável. Cortar, vergar, fechar foram desígnios que os obcecaram. Reduziram salários e escravizaram com trabalho inútil. Burocratizaram criminosamente. Secaram o interior, fechando escolas aos milhares. Manipularam estatísticas. Abandalharam o ensino com a ânsia de diminuir o insucesso. Chamaram profissional a uma espécie de ensino cuja missão é reter na escola, a qualquer preço, os jovens que a abandonavam precocemente. Contrataram crianças para promover produtos inúteis. Aliciaram pais com a mistificação da escola a tempo inteiro ( que sociedade é esta em que os pais não têm tempo para estar com os filhos? Em que crianças passam 39 horas por semana encerradas numa escola e se aponta como progresso reproduzir o esquema no secundário, mas elevando a fasquia para as 50 horas?). Foram desumanos com professores nas vascas da morte e usaram e deitaram fora milhares de professores doentes (depois de garantir no Parlamento que não o fariam). Promoveram a maior iniquidade de que guardo recordação com o deplorável concurso de titulares. Enganaram miseravelmente os jovens candidatos a professores e avacalharam as instituições de ensino superior com a prova de acesso à profissão. Perseguiram. Chamaram a polícia. Incitaram e premiaram a bufaria. Desrespeitaram impunemente a lei que eles próprios produziram. Driblaram as leis fundamentais do país. Com grande despudor político, passaram sem mossa por sucessivas condenações em tribunais. Fizeram da imposição norma e desrespeitaram continuadamente a negociação sindical. Reduziram a metade os gastos com a Educação, por referência ao PIB. No que era essencial, no que aumentaria a qualidade do ensino, não tocaram, a não ser, uma vez mais, para cortar e diminuir a exigência e castrar o que faz pensar e questionar.
A questão que se põe é esta: por que razão esta gente, que tanto mal tem feito ao país e à Escola, que odeia os professores, que espezinhou qualquer discussão ou concertação séria, que sempre permaneceu irredutível na sua arrogância de quero, posso e mando, de repente, decidiu "aproximar-se" dos sindicatos? A resposta é evidente: porque os 100.000 professores na rua, a 8 de Março, provocaram danos. Porque a campanha eleitoral começou a reparar os estragos para garantir mais quatro anos.
O tempo e a oportunidade política da plataforma sindical aconselhava uma firmeza que claudicou. Porque quem estava em posição de impor contemporizou. Porque de um dia para o outro se esqueceram as exigências da véspera. Porque quem demandou a lei em tribunal pactuou com uma farsa legal. Porque quem acusou de chantagem acabou a negociar com o chantagista. Porque quem teve nos braços uma unidade de professores nunca vista pensou pouco sobre os riscos de a pôr em causa.
É verdade que os sindicatos ganharam uns trocos. Mas o lance não era para trocos. Era para devolução integral: da dignidade perdida.
Aqui chegados, permitam-me a achega: pior que isto é não serem capazes de superar isto. E lembrem-se de Pirro, quando agradeceu a felicitação pela vitória: " Mais uma vitória como esta e estou perdido".
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Notas:
1 - Já devem ter lido este texto, mas, se não leram, devem lê-lo; subscrevo-o inteiramente;
2 - A verdade é dura de roer; por isso, os que estão preocupados com o Mário Nogueira, estão a atacar este artigo e o seu autor: uns com mais argúcia e com alguns argumentos, que até são de respeitar, outros com menos argúcia e com argumentos forçados; outros sem argúcia nenhuma, e com frases e nomes de propaganda antiga que atentam contra o pensamento;
3 - A verdade é que o acordo foi feito muito à pressa, para o texto sair num fim de semana, com os professores fora da escola, em cima da hora dos Plenários anunciados, e para ser logo"aprovado" às 8h30, de terça-feira passada, não dando tempo para reunir e discutir um acordo tão vazio;
4 - É que se não fosse assim, muito pouca gente, ou ninguém, ia aprovar aquela coisa; imaginem que tínhamos três ou quatro dias para pensar! Quem é que o ia aprovar? Os tais 90%? Eu não acredito nisso.
5 - O Mário Nogueira usou os mesmos truques que a ministra da Educação: textos em cima da hora, e a correr; argumentação com estatísticas, sem que se saiba o valor que têm; insultar os professores discordantes.
6 - Nós vamos continuar. Não precisamos de líderes que se embebeçam e verguem, só porque ficam muito "inchados" porque a ministra os "recebeu". Sabemos que não foi por isso; mas esse é o seu primeiro argumento.
7 - Vamos ver outros caminhos. E, apesar do Mário Nogueira, vamos manter-nos unidos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Porque era previsível, não nos sentimos traídos

Os professores não foram vencidos. Os professores não serão vencidos. Perdemos o Mário Nogueira. Mas não virá mal ao mundo por isso. Era previsível, mas teve que deixar-se acontecer numa atitude pedagógica para todos verem.
Ele é um fraco líder fracote. E um líder fraco torna fraca a forte gente - que me perdoe o Camões por citá-lo assim de cor. Podemos bem continuar sem ele. Noutro ritmo. Noutras formas. Continuaremos a não hostilizar os sindicatos.
Eu ontem ainda escrevi que não deviam ser verdadeiras as declarações que lhe eram atribuídas. Mas foi só para esperar pela confirmação de hoje nos jornais e na conferência de imprensa. Agora está tudo claro. Temos que contar connosco.
Não foi por acaso que a Moção e o Memorando apareceram nos últimos momentos. Foi para que não houvesse tempo de os ver e analisar. As mil escolas onde ele diz que o texto foi discutido, são um número manipulado. Deve ter contado tudo. Como naquelas eleições onde até os mortos votam.
Não estou contra quem aprovou os textos. Mas cada um em cada escola é que sabe como essa aprovação foi feita. As escolas que os rejeitaram essas tiveram mesmo que discuti-los. Mas isto não interessa agora, que o contar de espingardas nunca é uma boa solução.
Os protestos que ele só agora volta a dizer que mantém, esses vão ser já outra coisa. Voltarei a este assunto, que agora vou para mais uma reunião, onde vai haver gente muito contente, que sempre esteve contra nós, mas que está contente com o "acordo", que, afinal, é "entendimento", num joguinho de palavras a pensar que somos parvos.
A ministra também pensava assim. E também fazia sair textos a correr para não termos tempo de respirar para os ler.
Desanimado?
Qual quê?
Então!
Isto era previsível.
Vamos continuar. Como? Veremos. É preciso estar atento. E não adorar "macacadas", estejam elas onde estiverem.
Não somos adoradores de monos, sejam sagrados ou não.
Parabéns à senhora ministra. Não vergou os professores, mas vergou o grande líder.
:-)

terça-feira, 15 de abril de 2008

Pela unidade! Viva a democracia!

A PROPÓSITO DO DEBATE NA ESCOLA SECUNDÁRIA D. MARIA II
BRAGA
1.
Escrevi esta madrugada, no texto em baixo, que hoje, no plenário da minha escola, diria não ao "acordo / entendimento" entre a Plataforma dos Sindicatos e o Ministério, por não me rever nele, por achar que não foi por causa dos seus pressupostos curtos que lutámos tanto, que discutimos tanto, que enfrentámos tantos, que incomodámos tantos.
Desejei, no fim desse texto, que ninguém concordasse comigo, que ninguém me ouvisse, para eu ficar isolado e só, e, assim, de consciência tranquila, regressar ao sossego do meu canto. Mas confesso agora que não era só desejo. Era também a quase certeza de que assim seria.
2.
Dois sindicalistas, de sindicatos diferentes, haviam-me solicitado, vários dias antes do "entendimento / acordo", que presidisse ao plenário. A solicitação ganhou o peso duma obrigação, quando colegas da escola, principalmente os sindicalizados, me abordaram com o mesmo fim. E lá teve que ser.
3.
Abri o pasta que um sindicalista me havia dado com vários papéis. Só aproveitei as folhas de presença. É que a "Moção" só me chegou ontem, e o texto do "Memorando" mandaram-mo por mail, e esses dois textos levava-os eu na mão.
Comecei por dizer do meu desconforto pelo facto de eu já ter uma posição tomada acerca da "Moção" e do "Memorando", e estar ali a presidir ao plenário. Ninguém me ligou. Ainda sugeri ler a Moção e que a votassem logo, pois estava convencido que todos a iam aprovar. Disseram que não. Que lesse o "Memorando". E eu li. Tentei ser isento, mas não sei se consegui, principalmente pelas inflexões de voz.
Acabada a leitura, começou a discussão. Falava-se nos pontos do "Memorando" mas logo se avançava para o que mais interessava. E o que mais interessava era a revisão urgente do Estatuto da Carreira Docente; o anulamento do famoso concurso injusto e ilógico para "titular"; a exigência de um modelo que Gestão Escolar que não ofenda a democracia; a rejeição do iníquo Modelo de Avaliação em vigor, e não a sua aplicação "suave" durante dois meses, "legitimando" a sua aplicação integral já no próximo ano, a ver no que dá.
Davam-se testemunhos, avançavam-se exemplos, punham-se dúvidas, pediam-se esclarecimentos. Todos queriam falar. E todos falaram. Principalmente porque uma colega teve a perspicácia de vir de mansinho para junto de mim, anotando as inscrições que eu respeitava. Eu bem me inscrevia, mas sempre que a minha vez chegava, eu passava à frente, que o que eu queria dizer estava a ser dito de forma melhorada pelos meus colegas, quer concordando, quer discordando. Para quê estragar o que estava bem?
Eu só impedia diálogos directos quando desnecessários por não acrescentarem nada. E "obrigava" a que deixassem cada colega dizer o que queria, mas interrompendo-o, perguntando-lhe se já tinha dito tudo, que era como quem diz, para não divagar, para não repetir.
Já quase no fim também falei eu. Fiz uma síntese, acrescentando qualquer coisa, mais na forma de dizer que no conteúdo, que este estava claro.
O plenário foi muito vivo. Foi muito útil. Foi bom. é tão bom exercitar a discussão democrática. Foram três horas que passaram num instante.
4.
Mas a Moção? Ah! Ah, Moção! E o "Memorando"? Ah! O Memorando. Havia-se discutido tudo o que estava nesses documentos. Naturalmente. Sem ter que se lembrar os tópicos que tinham.
Voltei a ler a Moção, e votou-se assim: 26 contra, e duas abstenções; voltei a ler o Memorando do "acordo / entendimento", e votou-se assim: 26 contra, e três a favor.
Assinaram as folhas de presença 35 professores (1/3 dos professores da escola). Mas estiveram lá bem mais que esses. Muitos não assinaram porque não tinham aulas, e não tinham que justificar faltas. Outros entravam e saiam à medida que tinham que ir para as aulas, ou que acabavam de as dar. Mas, na altura da votação, o número exacto é o número apontado. Poderá parecer pouca gente, mas não é, dadas as circunstâncias (uns professores não acreditam no acordo, mas deram-no como um facto consumado; outros professores não quiseram faltar às aulas, o que seria o meu caso, não fosse o meu dia livre - via o luxo (Ai, se a ministra sabe!).
5.
Registei com satisfação a participação de três professores contratados. E, um deles, fez uma intervenção muito sensata e útil, assumindo frontal e claramente aquilo que estava a dizer. Votaram os três contra a Moção e contra o "Acordo / entendimento". Deram-nos uma lição. O que é preciso é gente assim. E eles sabem que nós nunca os deixaremos sós.
6. Como disse no princípio eu pensava que só eu é que estava contra aquele "entendimento"; fui um parvo; a minha escola também estava. No fim do plenário pus-me a pensar que seríamos a única escola a rejeitar a Moção e também o Memorando; fui um parvo novamente - há várias dezenas de escolas que fizeram exactamente o mesmo.
Respeitamos a opinião de quem aprovou a Moção e o Memorando, mas também exigimos respeito pela posição que assumimos, depois de três horas de debate a sério. A sério e democrático.
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Nota:
Não aprovamos texto redigido para o efeito; estávamos de acordo no que tentei referir no ponto 3; e deixo este texto aqui como prova da verdade, pois sei que quem esteve no plenário vai ler; e eu tenho vergonha na cara.

O acordo / entendimento foi a tábua de salvação da ministra

Lamento imenso, mas também digo não ao acordo.Isto é, ao entendimento. Quero dizer, que a semântica é traiçoeira, "acordo / entendimento", ou "entendimento /acordo". E quero dizê-lo aqui. Aqui e agora, acabadinho de chegar da manifestação de Braga, que ajudei a mobilizar, de que gostei, e de que dei nota no TempoBreve.
Já sei que me vão perguntar: e que alternativa propões? E então perguntarei eu: por que não perguntaram isso antes desse tal entendimento?Eu escrevi sobre a chantagem que fizeram com os professores contratados. Disse até que a ministra os tinha tomado como reféns. Mas agora estou a ver que eles também servem como uma espécie de "escudo" contra quem diverge do "acordo", isto é, do "entendimento". Ele nós andamos estes anos todos a protestar e a enfrentar os "mandaretes"; ele nós passamos todos este ano desgraçado e para esquecer, para agora abanarmos o rabo de contentes com a "suspensão" por dois meses da "versão completa e integral", aceitando a "versão mais reduzida" em jeito de faz-de-conta? E logo quando a ministra estava num beco sem saída?
Outra coisa: eu não admito que me mandem actas feitas para eu assinar no fim assim sem mais esta ou aquela. Refiro-me à "Moção" da plataforma, que simpaticamente me enviaram para se "aprovar" no plenário. Podiam mandar um guião com ideias principais. Mas uma "Acta já feita?" Ele nós não sabemos o que nos fez indignar?
Ele faz algum sentido dizer cobras e lagartos - aliás, com toda a justiça - e depois aceitar pacificamente, porque os sindicatos assim acharam, que ele se aplique um ano inteiro aquele modelo de avaliação ofensivo? Não vêem que aceitar isso é perder a força negocial que os professores mobilizados lhes davam? E não vêem que aceitar isso significa "engolir" por muito tempo tudo o resto? E depois, os sindicatos, prometem ouvir os professores acerca de sugestões, e até sobre formas de luta contra esse tal modelo, depois de o consentirem, depois de o assinarem?
Aceitar este acordo / entendimento, ou seja lá o que isso é, é "confessar" que, coitados, tínhamos era mesmo medo da avaliação. E que ficamos muito contentes por não a fazermos este ano. E que ficamos muito contentes, pois os sindicatos dizem que sim, que em Julho de 2009, vão negociar outro "entendimento".
Claro que há coisas positivas nesse "acordo / entendimento". Mas será que foram essas coisas que nos causaram tanta indignação? Claro que não! São rebuçados que se dão a rato tonto para melhor o apanhar.
Lamento muito. Mas amanhã vou dizer que não me revejo neste acordo. Não era por uma coisa assim que eu ia lutar tanto, discutir tanto, enfrentar tanta gente, incomodar tanta gente.
Oxalá não concordem comigo. Oxalá ninguém me ouça. Assim ficarei de consciência tranquila e sossegado no meu canto.
É evidente que esta minha posição não implica que não reconheça sinceridade e força e coragem e admiração por muita gente que conheci neste processo, e que está de acordo com este "acordo". Continuarei a respeitá-los e a seguir aquilo que dizem. Poderei até intervir, concordando ou discordando, se vir que não incomodo.
Um abraço.
Até breve.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

É a pronúncia do Norte / Esta voz que sai mais forte!

Cabe-nos a nós, cá no norte, fazermos as primeiras concentrações. Não vai ser fácil. Mas haja esperança. Não há que hesitar; há que marcar presença. Ninguém é substituível nesta matéria.
Sendo assim, vemo-nos em:


Vila Real - Praça do Município, às19h00

Porto - Praça da Liberdade, às 19h30

Braga - Av. Central, às 21h00
Bragança - Pc Cavaleiro Ferreira, às 21h00
Viana do Castelo - Praça da República, às 21h00

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Andará a loucura à solta?*

Deixo-os aqui com O Alienista, de Machado de Assis (1839 - 1908). Tenham cuidado. A sua morte foi anunciada. Mas nunca fiar. Ele pode apenas estar a experimentar uma nova teoria sobre a loucura. Acautelem-se, pois!
Já há tempos que queria pôr este livro aqui. E até falar dele. Fui adiando. Hoje decidi-me. Ele aqui está. Mas não vou falar dele. Se o ler verá que não é necessário. Ele fala por si. E se já o leu, faça como eu: leia-o outra vez, e outra, e outra.
Como é por de mais sabido, o Machado de Assis é brasileiro, de pai português e de mãe mulata. Sobejamente sabido é também o facto de ele ser um dos primeiríssimos entre os primeiríssimos autores da Literatura de Língua Portuguesa. Disse bem: Literatura de Língua Portuguesa. Não me enganei.
Sei que há quem sustente aquela ideia peregrina de que o falar português à moda do Brasil é já outra língua. Ou, se não é, que virá a ser. Há quem sustente o mesmo com o falar inglês à moda dos Estados Unidos da América do Norte. Os argumentos também são os mesmos. Mas não têm razão.
Os peregrinos dessa tal ideia dão-nos argumentos empolados de grandes roupagens. Mas, quando despidos, não têm peso bastante. Eu compreendo-os. Baseiam-se muito em estatísticas de espaço e de gente; baseiam-se também muito na sua própria vontade, cuja grandeza é inversamente proporcional ao peso dos argumentos que apontam. Mas as estatísticas voluntariosas, regra geral, são enganosas; dão-nos aquilo que já sabemos e queremos provar; ou o seu contrário, caso mudemos de ideias. São muitas vezes um verdadeiro absurdo, uma arbitrariedade, uma caricatura. São como aqueles referendos, cujo resultado não está tanto no voto, mas está muito mais no modo de perguntar.
E onde é que entra aqui O Alienista? Não entra. Mas eu faço-o entrar. Porquê? Porque quero, e porque a sua actualidade mo permite; mas, da actualidade poder-se-á falar depois. Então, não foram forçadas as considerações acerca daquela coisa das "línguas" e dos "argumentos"? Claro que foram. Mas eu avisei, lá em cima, no segundo parágrafo que não ia falar do livro. A culpa foi sua, que não acreditou. Você não tem vergonha? Não pode ao menos apontar duas razões para a sua demagogia? Ora aqui vão elas: primeiro, o Machado de Assis é brasileiro, mas escreveu o livro em português; segundo, o protagonista d' O Alienista é um homem de ciência, e também usa a estatística.
Para terminar, que isto vai longo, volto ao princípio, que é o essencial: acautele-se, que anda a loucura à solta; e leia O Alienista, que isso é que importa.
..........
*Notas:
1 - Este texto foi deixado aqui nas Peles a 7 de Novembro de 2007; volto a deixá-lo aqui, pois, agora, juntam-se duas razões próximas à sua permanente actualidade: a loucura anda decididamente à solta no meu país; e o Acordo Ortográfico;
2 - Lembrei-me de fazer pequenas alterações para melhorar o texto, adequando-o mais a estas razões últimas; mas não as fiz: assim nasceu, assim ficará;
3 - Se tiver curiosidade, e relacionados com este, pode ler os textos Amazona e Guerreira ( publicado nas Peles a 9 de Novembro de 2007 ), e O Alienista - enredo (publicado no TempoBreve, também a 9 de Novembro de 2007).

terça-feira, 8 de abril de 2008

Senhor Presidente da República, queremos ouvir-lhe a voz

1.
Por mais sondagens que apareçam e se publicitem, a verdade é que a ministra da Educação está cada vez mais isolada social e politicamente
. Muitos dos seus defensores oficiosos já zarparam para longe dos seus postos de ataque aos professores. Outros tentam encontrar alguns argumentos laterais, quase inofensivos, pois não contavam com a reacção argumentativa e informativa dos professores. Só mesmo os que estão de todo em todo fora da realidade, ou têm interesses directos na defesa deste governo é que continuam abespinhados num voluntarismo tarefeiro de mostrar serviço, para fazerem currículo, a ver se são nomeados ou promovidos.
Tão isolada está a ministra e os seus secretários, e outras entidades pardas e militantes , que nem eles próprios ensaiam já qualquer discurso que possa parecer argumento, mesmo em forma de arremedo.
2.
Ao discurso arrogante e farfalhudo de ataque aos professores, visando a sua humilhação e a sua desconsideração pública, seguiu-se um papagueio de frases sempre iguais, a ensaiar boa-fé, a ensaiar humildade, a dizer que tinha que ser, que até compreendiam os professores, que a mudança gera sempre desconforto, mas que iam explicar, sempre muito pacientes, como se os professores fossem lentos como eles.
Como estas frases, de ocas e inconsistentes, não resultaram, passaram a uma fase de quase silêncio público, e encetaram uma guerra de guerrilha, correndo devotamente o país em peregrinações, “secretas” e fundamentalistas, pressionando e ameaçando os seus interlocutores de sempre – os Conselhos Executivos, nomeadamente os seus presidentes.
Não conseguiram grande coisa, que, na sua grande maioria, os Conselhos Executivos já perceberam que foram usados, enganados e abusados. E também já perceberam, mesmo os mais obedientes, que estão isolados nas escolas, e que as escolas se transformaram num inferno que já os atinge também, mesmo quando não se ouvem chamas.
3.
Que fizeram eles então, a ministra “ajudante” e os seus “ajudantes” menores? Pararam para pensar? Não. Não o conseguem fazer. Pararam para negociar com os professores? Não. Que não o sabem fazer. Demitiram-se, como lhes mandaria a dignidade? Não. Que já a perderam toda inteira.
Que fizeram, pois, então? Abeiraram-se sem pudor dum precipício perigoso. Recorreram abertamente à ameaça. Recorreram ao terrorismo. Lançaram as suas garras ao pequeno grupo de professores que está em posição mais frágil e “apossaram-se” deles para exigirem resgate. Tomaram como reféns os professores contratados e os que têm as carreiras congeladas há dois anos. E o resgate que exigem é que os outros professores, a imensa maioria, abdique de exigir a suspensão deste modelo iníquo de avaliação a fingir, vestida duma hipocrisia imensa.
E que é que uma família faz quando um grupo “terrorista” toma de “assalto” um dos seus como refém, exactamente o mais frágil?
A sua hipocrisia terrorista e chantagista é tal que querem dar a entender que a responsabilidade política e moral pelos danos que causarem aos seus “reféns” será só nossa, se não “pagarmos” o resgate.
Isto é intolerável. Isto é jogo muito baixo. Isto é truque ilegítimo. Mas terão agências de consultoria e imagem a travestir isto de coragem. E a comunicação social irá ajudar. Como sempre.
4.
Eles estão quase a conseguir destruir a escola como um corpo funcional. Já fracturaram os professores com a aberração dos titulares; já criaram outras fracturas entre os órgãos democráticos das escolas e os outros professores; agora estão a tentar fracturar-nos em pequenos grupos, isolando-nos uns dos outros.
São assim os arrogantes sem razão; são assim os medíocres que não acreditam em si próprios; são assim os impotentes incapazes de usarem argumentos sérios; são assim os prepotentes; são assim os fundamentalistas fanáticos.
Eles atropelaram toda a ética. Eles praticaram e praticam todo o assédio moral contra os professores. Eles atropelaram a lei. Eles fizeram tábua rasa de toda a lógica legal.
Esta gente já não é má. Já não é incompetente. Esta gente precisa de um acompanhamento especial, a ver se ainda vão a tempo de virem a ser pessoas mais ou menos normais.
Pode ser que a maioria absoluta no-los imponha; mas isso não lhes dá razão. Pode ser que o sistema legal os proteja; mas isso fará com que o sistema legal não seja justo.
Esta gente tem um problema qualquer.
Os professores têm respondido. E continuarão a responder. Mas os professores, pela formação que têm, não podem responder com "terrorismo" ao "terrorismo" destes senhores.
Alguém tem que olhar com olhos de olhar para o que está a acontecer. Alguém tem que os parar.
O Senhor Presidente da República está de certeza bem informado. De certeza que não quer ir assistir ao funeral da Educação Pública.
Não pode continuar calado.
Queremos ouvir-lhe a voz.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O professor e o pai

Fui tentado muitas vezes a referir-me às origens e à infância de Maria de Lurdes Rodrigues. Tenho informações seguras sobre isso desde que ela “chegou” a Ministra. Nunca o fiz. E acho que nunca o faria.
Há muita gente que passou por situações semelhantes e não silencia essa situação.Mas agora está “tudo” na revista “Sábado”, de hoje. Quem quiser que tire as suas conclusões.
Eu só quero acrescentar que dei aulas durante três anos a licenciados chineses. Acho que eles gostaram de mim e fizeram questão de me dizer e repetir que, na China, um professor era tido como um pai. Às vezes um pai mais importante que o seu verdadeiro pai.Claro que isso era na China. Eu também digo isso aos meus alunos, mas é a brincar.
É claro que essa referência paternal que o professor pode ser, também aqui em Portugal, pode sê-lo para o bem ou para o mal.Não estou a referir-me especificamente aos professores que a ministra teve. Estou a referir-me mais concretamente à maneira como ela trata os professores do meu país.
Será a figura do pai que ela vê nos professores que maltrata, figura que quer castigar?Há outras considerações acerca de quem começa pelo Curso Comercial ( ou algo parecido). Também há quem se honre disso, e com razão, avançando mais na sua formação. Mas também há aqueles que avançam com “muito esforço e vontade” e fiquem eternamente ressentidos e se sintam injustiçados por terem sido sujeitos a situações que outros não foram. E, depois, quando lhes dão oportunidade, não conseguem esquecer isso, e toca de se afirmarem, seja de que maneira for, vingando-se, duma forma justiceira e cega , mostrando bem que a sua formação é muito, muito lacunar.
Leiam o artigo e meditem. Não sejam maus na leitura. Mas leiam que vale a pena.
E não deixa de ser interessante que a senhora ministra não tenha querido dar nenhuma informação para esta reportagem.
Há coisas que marcam a vida. Para o bem. E para o mal.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Comentários imerecidos, mas que me dão força e envaidecem, e que atiro com desprezo à cara da mediocridade

1.
Adriana Carneiro disse...

Hoje recebi um email de um amigo e antigo colega de liceu intitulado “Eis o grande Mota na manif”. Acho que só no momento em que vi aquela imagem é que me dei conta que toda esta polémica que envove os professores e o ministério da educação atingia também o meu Professor de Português. Senti-me envergonhada por não me ter apercebido do óbvio, mas aos poucos fui entendendo porquê. Existem pessoas que surgem na nossa vida e que a marcam de tal forma que para nós se tornam sempre mais, como o meu Professor nos dizia em tom de chacota “mais que vosso Professor sou vosso Pai espiritual”, e não é que à distancia de mais de uma década posso dizer que é mesmo! Deixo-lhe um abraço e a lembrança: Quem faz um filho fá-lo por gosto!!
Adriana Carneiro (1994-1997)

2.
TempoBreve disse...

Caríssima Adriana!
Isto não se faz. Eu sei que sou um pouco aquilo que dizes que sou, e que o teu colega te disse que eu sou. Mas não o posso dizer. E ter consciência disso, é trágico. Mas eu tenho orgulho. Estou de lágrimas correndo, molhando-me as barbas. Quem será o teu colega? Onde é que ele viu a fotografia?
Não estou a ver a tua cara. Só o nome. Tu deves saber que eu só vos conhecia pelo primeiro nome. Até vos mandava sublinhar o nome por que queríeis que vos tratasse. Não consegues imaginar a alegria que me deste. Eu não sou de desistir. Eu adoro os meus alunos. Sem excepção. Mesmo os que me deram mais trabalho. Sou assim. Hei-de morrer assim. E não há nenhum "filho da puta" que me faça desistir de ser o professor que sempre fui, e de gostar dos meus alunos como sempre eu gostei, mas sem que isso signifique que não deixe de resmungar, que não deixe de fazer um carinho, que nunca deixe de os incentivar, ora a bem, ora a mal, para que se tornem gente , e aprendam a pensar.E o melhor é parar aqui.
Se eu, como professor, deixei em ti marca positiva, isso é o que mais me interessa. Não há dinheiro que pague o favor que me fizeste. Até sempre. Eu sou, e serei sempre o professor que em mim viste, mesmo que eu não mereça uma tal distinção.
Vai um abraço?

3.
Adriana Carneiro disse...

Boa Noite, Professor:)
É natural que não se lembre de mim pelo nome: tantas caras, tantos nomes. Vou tentar ajudar. Quem viu a fotografia foi o Sérgio (tinha uma letra péssima que se mantém até hoje apesar das mais que muitas investidas do professor:)).
Não foi só em mim que o professor deixou marcas, mas também no Rui Moreira, no Sérgio, na Gabriela, no Hugo...
O Professor ajudou-me a criar a minha caligrafia, dizendo sempre que ela representava uma parte daquilo que eu era e que certamente eu não queria ser "aquilo".
Força do acaso conheci há tempos o seu filho, com quem partilhei algumas lembranças muito especiais dos momentos passados nas aulas do Professor. Julgo que também ele tentou descrever me, infelizmente sem resultado.
Quando terminei o liceu fui estudar para o Algarve e depois para Coimbra. Formei-me em Turismo.
Bem espero ter agora não só um nome, mas também um rosto. Se assim não for, também não importa, porque mesmo não sabendo quem sou, saberei sempre quem você é.

4.
Isabel Fidalgo disse...

António Mota,

Tu é que devias ter ido aos "Prós e Contras", amigo.Não houve gente à altura, à excepção da professora Isabel que representou muito bem a classe sem papas na língua, e com uma forma de estar e de dizer bem engraçada.
Precisa-se de gente culta e gente que saiba falar, duas qualidades que tu conjugas admiravelmente.Tu és grande, caramba, na altura, na convicção, na determinação.
Fico orgulhosa por ver testemunhos de alunos teus aqui no blogue. Outro dia uma mãe também me disse-O meu filho adora o Mota, o Mota enche-lhe as medidas.
Aqui vai um abraço com muita admiração.

5.
José Coimbra disse...

Caríssimo António,

Ser professor é mesmo isso. E mais não digo.

...............
Nota: Os elogios não são merecidos. São exagerados. Mas fazem bem. Por vaidade os ponho aqui. Por vaidade que assumo, e que de vez em quando mereço. E digo isto por não temer confrontar o meu "currículo", os meus conhecimentos científicos, a minha prática pedagógica, a minha capacidade de intervenção cívica e social com "pseudo projectos de candidatozinhos a avaliadorzinhos acríticos e seguidistas, à espera de nomeaçõezinhas", que doutro modo não chegam lá. Mas mesmo que cheguem, serão sempre "cães de fila" e nunca pensadores autónomos em busca de soluções eficazes para problemas que são difíceis.