Inventei-me em histórias, de que eu fazia parte. Inventei histórias outras que a mim mesmo contava. Até inventei anedotas, sendo eu a anedota ou não, e que a mim próprio contei. Apareciam-me de repente, em qualquer hora e lugar, desde que eu estivesse só, namorando fantasias. Depois de me aparecerem, era só deixá-las correr, que elas sabiam o caminho.
Algumas eram tão ternas, e outras era tão amargas, que eu, fingindo arrogância, alçava os olhos ao longe, para que a água corresse dos olhos, sem qualquer impedimento, por baixo das lentes dos óculos, e fosse esconder-se nas barbas, aquecendo-me a pele da cara. Mas também me apareciam daquelas tão cheias de ironia e sarcasmo, ou de absurdo tamanho, que também me faziam chorar, mas de rir à gargalhada. Nunca as contei a ninguém. Mas também como podia?
Fui menino e professor, professor e D. Quixote, e fui também as histórias que a mim mesmo contei. Tudo isso ainda sou. Mas quem sou ainda não sei.
Talvez eu seja as palavras que alimentaram os enredos do menino D. Quixote, professor dum mundo novo, e das histórias que me contei. Mas se eu sou essas palavras, teria que ser todas as outras: todas as que eles não pensaram nem sentiram; todas as que eles não conheceram; todas as que não inventaram; todas as que eu não não senti nem pensei; todas as que eu não usei; todas as que eu não sei; todas as que eu não inventei.
Por isso, eu posso muito bem ser essas palavras todas. Mas quem sou ainda não sei, que não as conheço todas. E nem sequer sei combinar, com as poucas que eu conheço, a infinidade de sentidos que eu seu que elas têm.
Eu posso ser o menino, posso ser o D. Quixote, posso ser o professor, posso ser minhas histórias, posso ser todas as palavras, e sei que sou tudo isso, mas quem sou ainda não sei.
Ando à procura de mim. Ainda não me encontrei. Ainda não sei quem sou.