terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Recomendações e ameaças

1 - O texto "Se não vier é passarinha" sofreu algumas alterações desde a sua primeira publicação. Não são de grande monta, mas ficou mais claro, sendo o conteúdo muito idêntico. Pode voltar a lê-lo, que eu não lhe cobro a segunda leitura. Devem lê-lo principalmente as pessoas que deixaram comentário, uma vez que as alterações foram feitas depois dos primeiros terem sido escritos.

2 - Os desejos amáveis que deixei no Tempo valem por mais alguns dias. Por isso, cuidado, não vá você encher-se de bichezas. Deve levá-los em muita atenção, a não ser que queira passar uns tempos a coçar-se até ficar sem pêlo e sem pele.

3 - Esses mesmos desejos amáveis passam a aplicar-se também a quem vier para aqui fazer perguntas curiosas e comentários difíceis. Vocês sabem muito bem do que estou a falar. Não o digo explicitamente para não levantar a lebre. Fala uma pessoa numa coisa, quase sem querer, e nem pensando nela, e logo aparecem pessoas obsecadas por ela, querendo saber tudo, como se ela fosse o fruto que foi proibido, sabe-se lá por quê. E até nem é fruto. Pelo menos para quem não sabe.

4 - Hoje é terça-feira - um nome pouco inteligente! -, e é dia de Lua Nova. Alegre-se, pois, que o luar vai começar a crescer. E é boa altura para crescer coisas. Desde que boas. Também é dia propício a ventos e trovoadas. Cuide-se do vento, pois, principalmente se for mulher e andar de saia. Mas os homens também. Mas, caso aconteça alguma coisa, assobiem para o ar para que pensem que foi o vizinho do lado.

5 - Logo ainda venho aqui a ver como isto está.

:-)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Se não vier é passarinha

No último texto que escreveu, o Tempo pensa que não, mas confessou. Pôs-se a jogar com as palavras, mas não lhe adiantou nada. Ainda tentou o truque de dizer que foi o macaco, mas isso foi chão que deu uvas. No fim, diz mesmo que foi ele que o escreveu, mas que não foi ele, que foi um macaco. Um absurdo. Enfim, aquele velho truque de baralhar palavras, para confundir inocentes, não dizendo nada. Ora vejam só a indecência insultuosa daquele título: "Transparente como água turva". Ele pensa que são todos parvos, mas não são. Então a nós, às Peles, é que que ele não engana.
Nesse mesmo texto, também se vê bem o que menino Tempo anda a tentar pôr as Saias, umas doidivanas, contra nós, as Peles, baluartes que somos de seriedade e valor. É a velha táctica de dividir para reinar, como se porventura ele, o Tempo - que é de sangue deslavado e de cor vulgar - pudesse aspirar ao prestígio nobre que o nosso sangue tem.
Mas parece que ele, o Tempo, tem aliados para criar confusão entre nós, as Peles - mui dignas e nobres -, e as Saias, umas regateiras, sem brazão algum. Parece mesmo que ele tem aliança cúmplice com um ser ínfimo que se chama beija-flor - uma avezinha tão pequenininha, que nem nem se vê bem se é passarinho ou se é passarinha. Mas nós, Peles, nada coscuvilheiras, ainda havemos de tirar isso a limpo. E não nos admiraremos muito se for passarinha!
Então não é que essa coisinha, ave pequenina embrulhada em penas, escreveu um comentário, pretensamente simpático, dizendo que nos perdoava a todos: a nós, nobres e senhoras D. Peles; ao Tempo, um casmurro, com um pretenso título de nobreza baixa e rasca, comprado em leilão, de feira e de velharias; às Saias, enfim, umas descaradas, sempre a prometer o que só nós podemos, e que elas não têm? Ao juntar-nos a todos, seres tão distintos, num mesmo saco de rasteira igualdade, essa avezinha, irrequieta e esperta, ofendeu gravemente a nossa nobreza de Peles.
Como castigo por ofensa tão grave, nós, as Peles, com o poder divino que nos foi conferido, ordenamos a essa ave, esquiva e minúscula, que venha já, aqui e agora, mostrar-nos se é passarinho ou se é passarinha; e mostrar-nos bem qual a proporção que ostenta entre pele e penas; e mostrar-nos claramente como se lhe alongam as patas, da ponta dos pés à junção no corpo; e como se lhe agita a cauda, lhe ondula o peito, e saboreia o néctar, quando numa flor vai roçagando o bico.
Se ela não vier mostrar, a ave beija-flor, ficamos a saber que ela é passarinha, vestida de saia, com que o tempo brinca.
:-)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Um embusteiro

Nós, as Peles, somos bem-educadas. As Saias também, embora não tanto. Por isso, vimos nós, as Peles, em nome nosso, e das Saias também - já que alguém, levianamente, nos associou a elas -, pedir-lhe desculpa pela nossa ausência, e pela ausência delas, nestes últimos tempos. Sabemos nós, as Peles, que não lhe fizemos falta nenhuma a si. As Saias, essas, acham que fizeram – umas tontas. Mesmo assim, pedimos desculpa, como nos ensinaram. Por nós e por elas.
Desculpas pedidas, queremos dizer-lhe que estamos espantadas com a ousadia do Tempo; as Saias também estão, embora estas se espantem com pouco – até com o vento. Mas adiante, que nós, as Peles, não queremos discutir com elas, as Saias, que são regateiras, todas agitadas de anca a abanar. Voltemos ao Tempo.
Vocês viram aquele truque velho e relho a que deitou mão no último texto que escreveu lá naquela coisa dele? Perdeu-se nas festas e não foi visitar quem o visitava lá naquele tal sítio onde ele mora e que nós não dizemos. Em vez de pedir desculpa, como nós pedimos, não senhor, que não bebeu do mesmo leite que nós, e nos educou , e a ele não, pois está bem de ver. Vai então daí, e só para disfarçar, inventa aquela treta daquela personagem lamecha, fingindo, assim, que alguém lhe pede que volte, insinuando coisas de piedades. Toda a gente sabe que foi ele que escreveu aquilo, um embusteiro. Mas, para evitar pedir as devidas, finge que é outro alguém que está a escrever. E, como se tal trafulhice não bastasse, finge que esse outro alguém lhe sente a falta, está preocupado com - ou qualquer outra coisa igualmente piegas -, e lhe pede que venha, e até que escreva. Francamente! Quem é que se interessa pela sua escrita arranhada, ou que ele venha ou deixe de vir? Cá para nós, as Peles, melhor ele não escrevesse, melhor não viesse, que só nos atrapalha, e nos rouba tudo, o ladrão!
Nós, as Peles, não somos invejosas, nem maledicentes, nem de queixinhas, embora as Saias, porque são Saias, o sejam bem para além do que é aceitável. Mas tivemos que vir aqui por três imperiosas razões: para descobrir a careca àquele intrujão - não fosse alguém pensar inocente que fomos nós que escrevemos aquele lamentável texto pedinte, que ele próprio escreveu, fingindo que não; para o acusar a ele, bruto, por não nos ter deixado responder, ainda, aos comentários que apareceram simpáticos nos nossos textos distintos; para lamentarmos, com inteira razão, a grande injustiça sua, uma vez que você não ligou nada àquela pérola de texto que é “A porta dos deuses, e que nós escrevemos.
Você não imagina o que temos aturado e sofrido, principalmente por ninguém ter lido nem comentado “A porta dos deuses”. Ele, o senhor Tempo, um insensível, sempre que passa por nós, dá uma risada brava e escarninha, só para chamar assistência, e grita: - “A porta dos deuses” ! Ahahahah! Zero comentários! Ze-ro! Zee-ro! Zeee-ro!”A porta dos deusses” vale zero! Vós valeis zero!
Grita e repete esta maldade. E, enquanto a repete gritando, une o polegar ao indicador, desenhando um zero, batendo com a mão, nesta posição afrontosa, o ritmo do grito.
Ora veja lá se não é humilhante, se não é deprimente.
E a culpa é sua, sabia?
E as injustiças reparam-se, sabia?
Ai, q'ela!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

FELIZ ANO NOVO

Para si e para os seus, tudo o que desejar de bom. Mas tem que o desejar mesmo, e não só fingir que deseja.
Apaixone-se, mas antes de o fazer, decida a hora e o local, e compre um medicamento para depois se curar de tão grave doença.
Olha à sua volta e aprenda a amar, com aquele amor quente, que é o amor de dar. Mas veja lá o que dá, sim? Só se pode dar o que não tem preço.
Ah! A amizade, esse sentimento de que tanto falamos e de que tão pouco sabemos. Sim. Dê amizade e procure amizade. Daquela mais rara, que chega até a ser mais que paixão, a ser mais que amor. Mas isto é outra história.
Olhe: tome lá um abraço, sim?
:-)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

BOM NATAL

A porta dos deuses abriu-se, e um deles já entrou, na forma de um menino, pequenino e inocente, mas que vai ter de aguentar a responsabilidade de ser um deles.
Nesta cena costumeira, mas sempre poética e terna, falta só um elemento, e esse elemento é a vaquinha. Escusam de protestar, pois alguém tinha que pegar na máquina, e tirar a fotografia.
E como a vaquinha é feita de bondade e inocência, correu depois para os montes a anunciar a boa nova com a sua voz potente. Os animais vieram logo. Os homens foram mais renitentes, e até exigiram provas, como a Estrela de Belém.
Mas depois lá foram vindo, agora um e logo outro, pois a vaquinha, que é esperta, prometeu-lhes que o Deus Menino daria, a quem o visitasse na gruta, um caminho de estrelas, onde corre leite e mel, que era tudo o que os homens queriam. Por isso lá foram vindo. E ainda hoje lá vão.
Venha você também. Mas não venha buscar só buscar o que a vaquinha prometeu. Venha antes trazer ao menino, e principalmente ao seus próximos, aqueles melhores alimentos que esconde no seu coração: a amizade e o carinho, a ternura e o amor.
:-)

sábado, 22 de dezembro de 2007

A porta dos deuses

No seu movimento aparente, o sol fecha agora um ciclo para abrir um outro. Na elipse que vai desenhando ao longo do ano, ele está agora no seu ponto mais afastado em relação a nós, e na sua declinação máxima a sul. Por isso nos aquece menos, aqui no hemisfério norte. É o Solstício de Inverno, o dia mais curto e da noite mais longa do ano inteiro. É o que nos diz a Física e a Astronomia.
Os homens de antanho, porém, não confiavam muito na ciência fria, e iam mais além. Aquecia-lhes o céu os olhos, desde há muito tempo, e eles viam lá deuses velando por eles, protegendo-os de desgraças e medos, abençoando-os com esperanças e sonhos; e deram nomes a esses deuses múltiplos, desenhados a fogo pelas estrelas; e para esses nossos antigos, todas as coisas no céu, e até na terra, se não fossem deuses, então teriam que ser obra deles; e foi por isso que eles, ao Solstício de Inverno, chamaram a porta dos deuses.
E fizeram bem. Que os deuses já cansados de noite tão longa, e condoídos da penúria dos homens, abriram as portas e entraram, trazendo consigo o sol subindo, o sol aquecendo, os dias crescendo, a noite minguando, a esperança aumentando, o homem sonhando, a vida brotando, num ímpeto primordial ainda, e sempre renovado; trouxeram consigo a luz e o fogo para iniciarem um tempo de renascimento, mais luminoso para os homens.
Em harmonia com os deuses, os homens antigos agradeceram a sua chegada , acendendo fogueiras nas clareiras dos bosques, nas encruzilhadas, no centro da aldeia, no centro das suas humildes moradas; dizem até que, no meio dos bosques, escolhiam os mais lindos pinheiros, e os enfeitavam para os deuses neles de mansinho poisarem; e celebravam o acontecimento, cantando e dançando, saciando o corpo e saciando a alma, numa embriaguês, sincera e feliz, de amor à vida, a renovar-se sempre. E foi assim que os deuses, o fogo e o pinheiro se tornaram símbolos de eternidade.
Os homens de antanho, na sua ciência mágica, inventaram a porta dos deuses, e, porque a inventaram, os deuses entraram, vindo até eles com o fogo da esperança, do sonho e da vida.
Os homens de hoje estão muito esquecidos dessa magia antiga. Regem-se por leis frias que lhes dizem que tem que ser assim, e eles regelam, descrentes do fogo que a magia tem. Mas ainda celebram. Chamam-lhe Solstício, chamam-lhe Natal, chamam-lhe Ano Novo – nomes encobertos, que nós bem sabemos que o que celebram é, na verdade, a porta dos deuses, e a sua chegada, teimando em trazer-nos, embrulhadas em cinzas, pequenas centelhas de fogo, para acender fogueiras de humanidade em nós.
E tanto é assim que, nestas alturas, muitas almas frias degelam, deixando que delas pinguem gotas de ternura. Oxalá sejam muitas, e sejam para sempre.
Que os deuses abençoem o mundo com inundações permanentes de ternura quente.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

As velhinhas, o responso e o macaco

Não sei bem se foi para falar das velhinhas que falei no responso, ou se foi para falar no responso que falei nas velhinhas. Esta minha dúvida, porém, não é relevante, pois os meus leitores, amáveis e justos, não vão hesitar, e vão gostar muito mais das velhinhas.
A bem da verdade, eu tive que meter na história o responso e as velhinhas, muito simplesmente porque o que se conta foi como foi. Foi tudo verdade, excepto aqueles pequenos reparos em que falo de mim, dizendo-me teimoso, quase impaciente, e até casmurro - mas isso você também já percebeu que sou eu a mentir, inventando-me alguns defeitos, para parecer quase humano.
Seguindo em frente, devo dizer-lhe que, mal reli a história, depois de a publicar aqui, logo o responso se me impôs com um relevo tal, que eu estava longe de imaginar. Sabem muito bem que o responso é uma oração, neste caso feita a Santo António, para que apareçam coisas perdidas ou para afastar males de que se tem medo. Ora, vai daí, eu pensei logo no meu amigo que andava perdido. Sim, o macaco.
Apesar do que ele me fez, eu não podia ficar de braços cruzados. Já tinha recorrido a tudo. Mas nada. E foi então que, quase em desespero, e apesar da minha tendência herética, me agarrei ao responso, naquela atitude pouco ortodoxa, quase oportunista, de que se não fizer bem também não fará mal.
Ensaiei-o três vezes, para não me enganar - que isso deitaria tudo por água abaixo; depois outras três, para que a convicção soasse sincera - que, se não, não valia; e depois rezei-o três vezes - como tem que ser -, muito concentrado, ajoelhado, de olhos fechados e de mãos postas, erguidas aos céus.
Quando acabei, não ouvi resposta. Mas deixei-me estar mais uns momentos de olhos fechados a meditar. Até que ouvi como que um roçagar de seda a passar e abri os olhos. Era um papel leve que apanhei e li: O teu macaco foi rapatado por uma pessoa que mora na "acaciaemflor" e que se assina como GraçaGrega.
E logo mais abaixo, em letra mais pequena: - Não sejas estúpido. Não enganas ninguém, muito menos os céus. O teu responso foi ridículo e burlesco. Nem merecias resposta. Mas as velhinhas de que tu falaste, cegas que estão pelo amor que te dão, acham que mereces. E é só por elas que te transmitimos esta informação confidencial. E fica sabendo que o macaco não é macaco; e tu também não; tu és mais que macaco: és um macacão.
Ponham-se no meu lugar e digam lá se o que li não é motivo para um ataque fatal: primeiro a resposta; depois a notícia do rapto; depois as velhinhas; depois o atrevido a chamar-me macaco.
Mas não tive tempo para perder em considerações merecidas. Saltei, pois, correndo à procura dessa malfadada acácia que, mesmo sendo graça, me queria desgraçar o macaco. Depressa descobri a morada. Era um blogue. Fui duro com ela. Exigiu-me resgate. Abdiquei logo de todos os princípios, e aceitei o suborno do resgate exigido. Que teria de ficar com o macaco até depois do Natal. Aceitei. Mas, ai dela se mo enfeitiça e não mo trata bem. Dou-lhe uma coça a ela, e outra ao macaco.
Só lhes contei isto para que saibam que há sempre alguém como as velhinhas a querer-nos bem; que os responsos são coisa bem séria; que neste mundo há muita gente má; mas que também há gente muito boa a fazer frente à que é má.
:-)