segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

BOM NATAL

A porta dos deuses abriu-se, e um deles já entrou, na forma de um menino, pequenino e inocente, mas que vai ter de aguentar a responsabilidade de ser um deles.
Nesta cena costumeira, mas sempre poética e terna, falta só um elemento, e esse elemento é a vaquinha. Escusam de protestar, pois alguém tinha que pegar na máquina, e tirar a fotografia.
E como a vaquinha é feita de bondade e inocência, correu depois para os montes a anunciar a boa nova com a sua voz potente. Os animais vieram logo. Os homens foram mais renitentes, e até exigiram provas, como a Estrela de Belém.
Mas depois lá foram vindo, agora um e logo outro, pois a vaquinha, que é esperta, prometeu-lhes que o Deus Menino daria, a quem o visitasse na gruta, um caminho de estrelas, onde corre leite e mel, que era tudo o que os homens queriam. Por isso lá foram vindo. E ainda hoje lá vão.
Venha você também. Mas não venha buscar só buscar o que a vaquinha prometeu. Venha antes trazer ao menino, e principalmente ao seus próximos, aqueles melhores alimentos que esconde no seu coração: a amizade e o carinho, a ternura e o amor.
:-)

sábado, 22 de dezembro de 2007

A porta dos deuses

No seu movimento aparente, o sol fecha agora um ciclo para abrir um outro. Na elipse que vai desenhando ao longo do ano, ele está agora no seu ponto mais afastado em relação a nós, e na sua declinação máxima a sul. Por isso nos aquece menos, aqui no hemisfério norte. É o Solstício de Inverno, o dia mais curto e da noite mais longa do ano inteiro. É o que nos diz a Física e a Astronomia.
Os homens de antanho, porém, não confiavam muito na ciência fria, e iam mais além. Aquecia-lhes o céu os olhos, desde há muito tempo, e eles viam lá deuses velando por eles, protegendo-os de desgraças e medos, abençoando-os com esperanças e sonhos; e deram nomes a esses deuses múltiplos, desenhados a fogo pelas estrelas; e para esses nossos antigos, todas as coisas no céu, e até na terra, se não fossem deuses, então teriam que ser obra deles; e foi por isso que eles, ao Solstício de Inverno, chamaram a porta dos deuses.
E fizeram bem. Que os deuses já cansados de noite tão longa, e condoídos da penúria dos homens, abriram as portas e entraram, trazendo consigo o sol subindo, o sol aquecendo, os dias crescendo, a noite minguando, a esperança aumentando, o homem sonhando, a vida brotando, num ímpeto primordial ainda, e sempre renovado; trouxeram consigo a luz e o fogo para iniciarem um tempo de renascimento, mais luminoso para os homens.
Em harmonia com os deuses, os homens antigos agradeceram a sua chegada , acendendo fogueiras nas clareiras dos bosques, nas encruzilhadas, no centro da aldeia, no centro das suas humildes moradas; dizem até que, no meio dos bosques, escolhiam os mais lindos pinheiros, e os enfeitavam para os deuses neles de mansinho poisarem; e celebravam o acontecimento, cantando e dançando, saciando o corpo e saciando a alma, numa embriaguês, sincera e feliz, de amor à vida, a renovar-se sempre. E foi assim que os deuses, o fogo e o pinheiro se tornaram símbolos de eternidade.
Os homens de antanho, na sua ciência mágica, inventaram a porta dos deuses, e, porque a inventaram, os deuses entraram, vindo até eles com o fogo da esperança, do sonho e da vida.
Os homens de hoje estão muito esquecidos dessa magia antiga. Regem-se por leis frias que lhes dizem que tem que ser assim, e eles regelam, descrentes do fogo que a magia tem. Mas ainda celebram. Chamam-lhe Solstício, chamam-lhe Natal, chamam-lhe Ano Novo – nomes encobertos, que nós bem sabemos que o que celebram é, na verdade, a porta dos deuses, e a sua chegada, teimando em trazer-nos, embrulhadas em cinzas, pequenas centelhas de fogo, para acender fogueiras de humanidade em nós.
E tanto é assim que, nestas alturas, muitas almas frias degelam, deixando que delas pinguem gotas de ternura. Oxalá sejam muitas, e sejam para sempre.
Que os deuses abençoem o mundo com inundações permanentes de ternura quente.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

As velhinhas, o responso e o macaco

Não sei bem se foi para falar das velhinhas que falei no responso, ou se foi para falar no responso que falei nas velhinhas. Esta minha dúvida, porém, não é relevante, pois os meus leitores, amáveis e justos, não vão hesitar, e vão gostar muito mais das velhinhas.
A bem da verdade, eu tive que meter na história o responso e as velhinhas, muito simplesmente porque o que se conta foi como foi. Foi tudo verdade, excepto aqueles pequenos reparos em que falo de mim, dizendo-me teimoso, quase impaciente, e até casmurro - mas isso você também já percebeu que sou eu a mentir, inventando-me alguns defeitos, para parecer quase humano.
Seguindo em frente, devo dizer-lhe que, mal reli a história, depois de a publicar aqui, logo o responso se me impôs com um relevo tal, que eu estava longe de imaginar. Sabem muito bem que o responso é uma oração, neste caso feita a Santo António, para que apareçam coisas perdidas ou para afastar males de que se tem medo. Ora, vai daí, eu pensei logo no meu amigo que andava perdido. Sim, o macaco.
Apesar do que ele me fez, eu não podia ficar de braços cruzados. Já tinha recorrido a tudo. Mas nada. E foi então que, quase em desespero, e apesar da minha tendência herética, me agarrei ao responso, naquela atitude pouco ortodoxa, quase oportunista, de que se não fizer bem também não fará mal.
Ensaiei-o três vezes, para não me enganar - que isso deitaria tudo por água abaixo; depois outras três, para que a convicção soasse sincera - que, se não, não valia; e depois rezei-o três vezes - como tem que ser -, muito concentrado, ajoelhado, de olhos fechados e de mãos postas, erguidas aos céus.
Quando acabei, não ouvi resposta. Mas deixei-me estar mais uns momentos de olhos fechados a meditar. Até que ouvi como que um roçagar de seda a passar e abri os olhos. Era um papel leve que apanhei e li: O teu macaco foi rapatado por uma pessoa que mora na "acaciaemflor" e que se assina como GraçaGrega.
E logo mais abaixo, em letra mais pequena: - Não sejas estúpido. Não enganas ninguém, muito menos os céus. O teu responso foi ridículo e burlesco. Nem merecias resposta. Mas as velhinhas de que tu falaste, cegas que estão pelo amor que te dão, acham que mereces. E é só por elas que te transmitimos esta informação confidencial. E fica sabendo que o macaco não é macaco; e tu também não; tu és mais que macaco: és um macacão.
Ponham-se no meu lugar e digam lá se o que li não é motivo para um ataque fatal: primeiro a resposta; depois a notícia do rapto; depois as velhinhas; depois o atrevido a chamar-me macaco.
Mas não tive tempo para perder em considerações merecidas. Saltei, pois, correndo à procura dessa malfadada acácia que, mesmo sendo graça, me queria desgraçar o macaco. Depressa descobri a morada. Era um blogue. Fui duro com ela. Exigiu-me resgate. Abdiquei logo de todos os princípios, e aceitei o suborno do resgate exigido. Que teria de ficar com o macaco até depois do Natal. Aceitei. Mas, ai dela se mo enfeitiça e não mo trata bem. Dou-lhe uma coça a ela, e outra ao macaco.
Só lhes contei isto para que saibam que há sempre alguém como as velhinhas a querer-nos bem; que os responsos são coisa bem séria; que neste mundo há muita gente má; mas que também há gente muito boa a fazer frente à que é má.
:-)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O Natal e o responso.

1.
É segunda feira. Daqui a uma semana é o natal - foi o que umas velhinhas me disseram.
Não se esqueça daquele telefonema que anda para fazer há muito tempo; não deixe para o último dia aquelas comprinhas que são mais de afectos que de materialismo consumista e exibicionista a cumprir obrigação.; não compre coisas à toa; As coisas mais valiosas são sempre as que levam o sentimento e o pensamento, e não o capricho de coisa que se tem que dar porque a pessoa quer.

2.
Já soube mais novidades acerca dos computadores maníacos e do macaco rebelde. Mas contarei mais logo, quando tiver mais um tempinho. Foram umas velhinhas que me ensinaram a como descobrir coisas perdidas, usando um método antigo. Antigo, mas infalível. Foi o que elas me disseram; foi o que elas me provaram, rezando um responso.

3.
Na verdade, só vim aqui para lhe dar um "bom dia", que, a esta hora, e neste dia, é o mesmo que desejar-lhe que tenha uma semana feliz.

:-)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Deve ser impressão minha

1.
Penso que já respondi a (quase) todos os comentários. Acabei agora mesmo de responder aos últimos que apareceram no Tempo, em O gato que matou o cão.
Relativamente a estes últimos, e também a todos os outros, as minhas desculpas pela demora.
Vocês não querem ir lê-los? Não? Pois, se não querem, não querem! Mas eu vou anotar quem não vai. E depois vamos a ver a decisão que vou tomar.

2.
Agora só mais uma coisinha: vocês já pensaram na hipótese dos computadores que nós temos não serem todos iguais? Não se trata de formatos, nem mesmo de capacidades, que isso é coisa banal e bem fácil de se ver.
Eu quer-me cá parecer que anda aí conspiração para a distinção ser maior. Pensam que estou a brincar? Mas olhem que eu quase podia dizer-lhes da grande subtileza que essa distinção contém.
É cá uma impressão minha, sustentada em indícios que às vezes por aqui vejo. Mas não lhes digo mais nada: não iam acreditar; ou iam-se até assustar.
Não percam a tranquilidade. Pode ser só impressão minha, ou boato insinuado. Mas se for mais do que isso, não digam que não fui amigo, e que não os avisei.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Espiral *

Onde está o nada, e no nada o tudo?
Onde está o tudo, e no tudo o deus?
Onde está o deus, e no deus o tempo?

Onde está o tempo, e no tempo o espaço?
Onde está o espaço, e no espaço o fogo?
Onde e está o fogo, e no fogo o ar

Onde está o ar, e no ar a luz?
Onde está a luz, e na luz o brilho?
Onde está o brilho, e no brilho o mar?

Onde está o mar, e no mar o barco?
Onde está o barco, e no barco o homem?
Onde está o homem, e no homem quê?

E no quê o homem
E no homem barco
E no barco o mar?

E no mar o brilho
E no brilho a luz
E na luz o ar?

E no ar o fogo
E no fogo o espaço
E no espaço o tempo?

E no tempo o deus
E no deus o nada
E no nada o tudo?

...
* Com uma arma de afectividade apontada à cabeça, fui mesmo obrigado a fazer a vontade ao macaco. Telefonou-me de parte incerta. Discutimos muito.

-Publica já os dois coisos juntos!; - Coisos? - Sim, os poemas! Queres irritar-me?; -Não! Calma aí!; - Põe um a seguir ao outro, tal como estão. - Mas assim ficas um autor pesado!; - O quê? Estás a chamar-me gordo?; - Não! Que ideia! Vou só aligeirar a segunda parte, dando-lhe um ritmo leve, mais de baloiçar!; - Baloiçar? Tu disseste baloiçar? Estás a insinuar que eu sou macaco a baloiçar em árvores?; - Não! Que coisa! Mas como é que te foste lembrar?; - Não me lembrei nada. Dá-lhe lá então esse tal ritmo leve, mas, pelo sim pelo não, tira o baloiçar!; - E que queres que ponha?; - Inventa lá qualquer coisa, mas baloiçar, isso não, que podem pensar, tu sabes o quê!; - Em vez de baloiçar vou pôr embalar, está bem?; - Embalar está bem! E deixa-te de tretas, que o embalar comove-me!; - Queres voltar para a Casa das Letras?; - Sim! Mas não te vou dizer que quero!

E desligou. Mas eu bem lhe ouvi uma lágrima a cair para mim. E publiquei o texto, que juro que é dele.

Comentários a comentários

Um tal Alcoviteiro disse, num comentário em "Vou ter que lhe dar uma coça" - texto que está no Tempo -, que alguns dos meus comentários aos comentários são melhores do que alguns textos.
A verdade seja dita: o Alcoviteiro tem razão. Eu já estive para avisar, mas não me ficava bem. Por isso fui esperando que aparecesse alguém que o fizesse por mim. E apareceu o Alcoviteiro.
Por isso, façam o favor de lerem os comentários que escrevo, que sendo induzidos pelos comentários de uns, são escritos para todos. Alguns valerão a pena. Mas se acaso a sua leitura for uma perda de tempo, você poderá sempre chamar-me uns nomes bonitos.
Até logo, sim?
:-)

Nota: A fotografia no Tempo é linda, e fui eu que a tirei, e vai ter um pequeno texto.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Vou armar-lhe uma cilada

Peço imensa desculpa pelo acontecido no Vou ter que lhe dar uma coça, ontem publicado no Tempo. Já o alterei várias vezes, a ver se amenizava a rudeza do macaco, mas quanto mais o altero, mais rude ele fica . Já viram como me enganou? Já viram como me trata? E os nomes que me chama? Eu nem quero acreditar. E dizer-se que o criei!
Eu sei que a culpa não é bem dele. É mais de quem o inventou. E não se ponham com esse olhar silencioso e crítico viradinho para mim, ouviram? Eu sei que lhe dei o ser e o criei, mas não o criei assim. Quem o criou assim foram vocês, com as manias que lhe ensinaram, com os truques que lhe mostraram, com as simpatias que lhe deram, com as promessas que lhe fizeram. E principalmente daquelas que, sem escrúpulos e manhosas, o embeiçaram, tornando-o quase imbecil.
Eu já tinha dito aqui, que ele andava apaixonado. Logo, que andava doente. E até acrescentei que eu o ia curar. Mas nunca imaginei que a doença era assim forte. Tão, que eu já duvido se aquilo é doença de paixão, ou se de feitiçaria. Mas seja qual for a origem da loucura que se apossou dele, eu sei que o vou recuperar. Mas da coça não se livra, pois aquilo que ele me chamou, no texto já referido, não se pode perdoar. E eu não sou pai banana, não sou professor banana, nem sou amigo banana.
Eu vou fazer constar por aí que chegou aqui para ele uma carta apaixonada, recheada de palavras e de promessas bonitas, e com uma fotografia que também é muito linda; e também vou fazer constar que a fotografia vem vestida, com umas pecinhas de seda, mas que a maior parte das vestes é constituída por pele. Ele vai voltar a mim, que ele vai desejar vê-las: a ela, à sedas e à pele.
Só tenho que arranjar a carta e a fotografia, tais como eu disse que eram. A carta, isso é fácil, que essa sei eu escrever. Ora agora a apaixonada, toda vestida de pele, exceptuando apenas as pequenas peças de seda, isso vai ser mais difícil. Mas algo se há-de arranjar.
Ele acha-se muito esperto, mas vai cair neste truque, que nem pato em braseiro.
Vocês não lhe digam nada, que eu só o quero enganar, para lhe dar a tal coça, e para depois o curar. Que eu gosto muito dele, e só lhe posso querer bem.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Onde está o quê? *

Onde está o quê, e no quê o homem?
Onde está o homem, e no homem barco?
Onde está o barco, e no barco o mar?

Onde está o mar, e no mar o brilho?
Onde está o brilho, e no brilho a luz?
Onde está a luz, e na luz o ar?

Onde está o ar, e no ar o fogo?
Onde está o fogo, e no fogo o espaço?
Onde está o espaço, e no espaço o tempo?

Onde está o tempo, e no tempo o deus?
Onde está o deus, e no deus o tudo?
Onde está o tudo, e no tudo o nada?
........
* Este texto tem diferenças relativamente ao que está no Tempo; poderei juntar os dois; se tal acontecer, não decidi ainda qual ficará primeiro; se os juntar, haverá modificações; o títulos serão também alterados; por que diabo não parei no primeiro?; tinha o problema resolvido, não tinha?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Escadas da vida

Regressarei hoje aqui com um pouco de mais tempo. A ausência de dois dias deveu-se ao fim de semana. E vocês sabem também que andei à procura do tal.
Encontrei-o na sexta-feira. Tinha que ser. Ameacei-o e, logo no sábado , até me acompanhou a Montebelo, em Viseu. Mas seguiu-me sempre à distância, fingindo o tempo todo que eu não sabia dele; e eu fingindo todo o tempo que ele não sabia de mim. Ele é duro de roer; mas eu também não sou mole.
Ele anda preocupado. Quer dizer-me qualquer coisa. Quer dizer-me, ou quer pedir-me. E eu até já desconfio qual a coisa que ela é. Vou ter que ter muito cuidado, na resposta que lhe der. É que as respostas são escadarias que podem fazer da vida, ora um céu, ora um inferno. E nem sempre é muito fácil distinguir umas das outras. E mesmo quando as distinguimos, ainda somos tentados a seguir pela errada. Vou ter que ter muito cuidado com a resposta que der ao meu amigo macaco. Que eu quero-o no céu, mas não na forma de parvo.
Mas voltarei mais logo aqui, que agora tenho que ir.
E tenha um muito bom dia!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Na linha da frente

Hoje, quando cheguei à Casa das Letras, fiz como sempre faço: fui de sala em sala, de estante em estante, de gaveta em gaveta, a ver se via o macaco. Há uma voz que me diz que ele anda aqui por perto, ou até em mim. Percorri os cantos todos, mas nem sinal dele.
Resolvi vir aqui ao computador, contentando-me ao menos com o seu retrato. Mas, qual quê? Já não está na página. Foi então que o meus olhos caíram num papel escrito com uma caligrafia, apressada e disfarçada, que era a dele, e que rezava assim:
Li tudo o que foi escrito sobre os mandaretes: as alegorias, que fingiste não serem, para que todos soubessem que eram; as alegorias, que outros escreveram, dando força às tuas; os teus comentários, que embora críticos, são bem comedidos; os comentários dos outros, reforçando os teus, e bem melhores que os teus.
Depois de ler tudo, até concordei. Mas soube-me a pouco. Pus-me a pensar por que motivo me sabia a pouco. E descobri: falta-vos a alma; falta-vos a utopia; falta-vos a grandeza; falta-vos a coragem; falta-vos o sonho; falta-vos um rumo. Mas a mim, não, que, como bem sabeis, estou apaixonado. E só a paixão é que nos ilumina, e nos enche o peito duma força tal, que nada nos impede de avançar em frente, perseguindo sempre os ideais mais nobres.

A minha paixão, que reconheceste, obriga-me a avançar. Por isso estarei na linha de frente, marcando presença contra os mandaretes; contra todos eles, estes ou outros, que estejam na fila para apanhar lugar; contra os mandaretes que se refastelam, em manjares megalómanos de esbanjamento, sentados à mesa do orçamento, que todos nós pagamos com língua de palmo; contra os mandaretes que, hipocritamente, vão deixando cair, aqui e ali, umas migalhas, pensando, na sua infinita bondade, que as pessoas sofridas são ratos; contra os mandaretes que, despudorados, ficam irritados por não aceitarmos a condição de ratos e por protestarmos e não batermos palmas e não abanarmos rabos.
Contra os mandaretes, na linha da frente. Por mim e por vós, mesmo que não concordeis; por mim e por vós, os que não podeis, porque o ordenado é pouco, porque o emprego é arbitrário, porque justamente temeis retaliações, ou, muito simplesmente, porque não sabeis da massa de que são feitos estes mandaretes, nem dos traumas da incompetência que têm.

E, para começar, hoje faço greve, que a minha paixão de povo me obriga a estar na linha da frente.
Depois de ler isto, eu fiquei varado. Tenho que ir com ele. Estar ao lado dele. E ele vai gostar de me ver a seu lado.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Activista e agitador

O macaco passou por aqui e deixou-me uma mensagem. E fez-me uma intimação para que eu a publicasse. Ele virou activista. Activista e agitador. E como ele é inteligente, ainda o podem prender. Vou ter de pensar melhor. Mas tenho que pensar depressa, a ver se o posso salvar.
Até breve.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O macaco anda perdido

O macaco anda fugido. Tenho andado a procurá-lo. Por isso, não tive tempo de dar qualquer seguimento à história que é a dele. Eu já sei por onde ele anda, mas não consigo deitar-lhe a mão. A culpa, vocês sabem bem, é dumas certas pessoas que usam de todos truques que o encantamento inventou.
Se você quiser saber por onde é que ele anda perdido, eu digo-lhes o sítio exacto: ele anda nos comentários, que se foram espalhando, pelo texto ali em baixo; e noutros doutros ainda. Eu também escrevi lá os meus.
É só abri-los e lê-los.
Ele manda-lhes um sorriso. E eu, para não ficar para trás, mando um também dos meus.
:-)

sábado, 24 de novembro de 2007

Anda apaixonado, mas eu vou curá-lo

O senhor macaco é mesmo um perito. Peça central da minha manobra secreta, ele foi exímio na sua eficácia. Eu agradeci-lhe em forma de texto, fazendo justiça à sua figura. Não exagerei nada, embora pareça, na descrição que fiz dele em O macaco e eu.
Eu sei muito bem que ele é curioso, e vai de sala em sala, de estante em estante, de gaveta em gaveta, vasculhando tudo na Casa das Letras, que é um sítio nosso. Tudo o que eu escondo, tudo ele encontra. Mostrei-lhe, então, O macaco e eu, até porque o texto era para ele, e não vale a pena esconder-lhe nada.
Despachou o primeiro parágrafo duma assentada, como que só a fazer-me a vontade. Atirou-se ao segundo, e foi avançando atento, cada vez mais lento, até estacar, numa concentração total, quando o terminou. Titubeou, quase imperceptível, com a emoção, num tremer de lábios. Olhou para mim. Tinha no olhar um brilho de água lustral, tão de humanidade. Eu sorri-lhe meigo. Caiu-lhe então o olhar, turvado de névoa, no terceiro parágrafo, todo desfocado. Para o ajudar a chegar ao fim, apontei-lhe com o dedo, palavra a palavra, que eu ia sussurrando para ele ouvir, como se fosse ele que estivesse a ler.
Quando terminei, ele descompôs-se todo numa emoção franca. Atirou-se a mim. Apertou-me os ossos em ímpeto de abraço muito apertado. Fez das minhas costas tambor ressoante, com a emoção a escapar-lhe em ritmo das suas mãos agitadas. Pescoço inclinado, encostado ao meu, escondia as lágrimas, e emitia uns sons sincopados, que eram juras de agradecimento, e de amizade, e de dedicação eterna e inteira, até ao fim dos tempos. Assim são os homens. Uns sentimentais. Quando a emoção os liberta.
Vou ficar por aqui. Mas já lhes contei que ele anda estranho. Anda mais distante. Até parece que já não quer ser eu. Já sei o que foi. Já descobri tudo. Ele leu qualquer coisa. E acreditou. Alguém o seduziu. Anda apaixonado.
Mas depois lhes conto. E não se preocupem, que o vou curar. Já sei a doença. Já sei a culpada. Que até podem ser várias. Sei o diagnóstico. Elas vão pagá-las. Não se preocupem, que eu vou curá-lo. Elas vão pagá-las.
:-)

A culpa foi dela

Bom dia.

Deixarei aqui um texto, ainda hoje, em que vou pôr a careca ao léu ao macaco. Ele caiu no truque mais velho e mais lindo do mundo. Eu bem o avisei. Mas ele olhou para mim e disse-me, como se fosse eu:
- Olha quem fala!
:-)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O ler faz mal

Bom dia!
Vocês nem queiram saber. O macaco agradeceu-me, emocionado, as palavras que lhe dei, jurando-me eterna dedicação inteira. Assim são os homens. Uns sentimentais. E amigos para sempre.
Mas algo estranho está acontecer. Ele já não está tão solidário comigo. Está mais distante. E até parece que não quer ser eu. Ele deve ter lido qualquer coisa que não quer partilhar comigo. Assim são os homens. Uns ciumentos. E amigos, amigos, beijos à parte.
Vou pensar melhor. Mais tarde lhes conto. Mas se for verdade o que eu suspeito, fica provado que o ler faz mal.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

O macaco e eu

Ninguém vai comentar com desdém, ou sequer insinuar menos apreço, acerca daquele senhor, que apareceu aqui em baixo. Não sei donde ele surgiu. Nem que veio aqui fazer. Mas caiu-me cá em casa, e vou deixá-lo aqui ficar.
Até porque ele aparece com aquele ar pensador, agora tão em desuso; com aquela esperteza no olhar calmo, que se vai tornando rara; com aquelas rugas sábias, de paciente ironia; com aquele sarcasmo tão leve, que chega a parecer que não; com aquele gesto enrolado de mão, sustendo elegante o queixo; com aquela linha de sombra leve, naquela junção de lábios, ondeando a sorrir.
Tem tudo o que parece, este antropóide bonito: a sageza paciente, a elegância natural, a ironia inteligente. Ele é o que parece
Vou ficar mesmo com ele. Não sei bem qual o motivo, mas, para além do que já disse, há um não sei quê, no seu perfil encantador, que me diz para o fazer. E se não fosse cá por coisas, diria até que sou eu. Mas não digo que não posso, pois não quero que me acusem de me estar a engrandecer.
:-)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Uma boa intenção

Tenho a santa intenção de deixar-lhes, ainda hoje, um pequeno texto sobre aquele respeitável senhor que está aqui em baixo.
Não o deixo agora, que está por acabar; e quando o acabasse, iria alterá-lo.
Vocês, por maldade, iam protestar, claro! Sem qualquer razão, mais claro ainda! Por isso, não o deixo aqui agora.
Mas deixo-lhes a tal boa intenção, que já leva ao céu.
É o que dizem!
:-)

domingo, 18 de novembro de 2007

Sim e não, eis a slolução

...
in Amanhã - Aventuras num mundo incerto, de Bradley Trevor Greive*, artepluraledições, 1ª. edição, 2004, p. 8
*Natural da Tasmânia; vive em Sidney, na Austrália; gosta de animais; ver
www.btgstudios.com

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Eles já vão ver!

Isto é para todos aqueles e aquelas, anónimos ou sucedâneos, que se unirem do lado de lá - em forma de legião conspirativa, céptica e malévola -, contra a minha frágil, crente e inocente pessoa, que está heróica e sozinha do lado de cá. Sendo para todos esses, é principalmente para os dois "Anónimos" e para a Ibel - autores dos três últimos comentários deixados em Boatos e Alegorias, no pobre e indefeso Tempo -, pois eles podem bem ser os chefes da impiedosa e exigente conspiração. Mas é para si também, que, como eu, é inocente e não tem malícia, só para que veja como eles são maus, e como eu sou bonzinho, e como se devem pôr todos do meu lado, rezando por mim. Eu nem ponho aqui os comentários que eles fizeram. Mas eles estão lá, no sítio deles.
Dirigir-me-ei primeiro aos tais dois "Anónimos", como se só estivesse a falar com eles, estando, na verdade, a falar com todos.
- Falo para os dois, mas desde já juro não estar a insinuar que vocês os dois sejam dois em um. O que é isso de me chamarem perito na arte da fuga? E que é isso de me vestirem de barbas de maliciosa inocência? E que é isso de irem aos mares buscar temporais para me retardar?Eu aprecio "A Arte da Fuga", mas não sou fujão; a minha inocência é proverbial, mas, às vezes, tenho que pôr as barbas de molho, por causa da malícia que inventam em mim; os temporais do mar entram-me na alma, assim como a acalmia que eles depois trazem.
Há ainda a Ibel. E a essa não perdoo mesmo, que me fez pensar estar do meu lado, quando, afinal, também está do lado de lá. Bem me enganou! E eu só no fim é que percebi a figura que fiz no que lhe escrevi. Ora vejam bem:
- Ainda bem que você acredita na minha inocência, bem comprovada na coelha branca e no galo em poses de; poses essas que, como diz, e bem, não suscitam nada. Mas as más línguas cépticas não se conformam; não acreditam; só vêem naquilo o que querem ver, e que é o que lá está.Até a cria se põe contra mim. E é sempre assim. Em vez de se pôr do lado de cá, põe-se sistematicamente do lado de lá. E, depois, ainda se ri da habilidade.Eu acho que você também se está a rir agora. Ai, o diabo! Não me diga que também está com os do lado de lá e, porque me sabe inocente, esteve a gozar comigo.Ai, ai, ai,ai, ai ,ai!
Estes anónimos, e esta Ibel, que teimosos são! Tenho que livrar-me deles, e da sua pressão. Nesta brevidade que me envolve, não posso, agora, dar-lhes a história que, provocatórios, merecem e querem.
Mas eu já lhes digo: vou engendrar, com muito cautela, uma infalível manobra de diversão. Vou iludi-los. A eles e aos deles. Mas a você não.
Nem vão dar por ela! Eles já vão ver! E vocês também.

Nota: Esta nota só deve ser lida pelos que estão do lado de cá; e não digam aos outros, aos do lado de lá, que este texto é já ele em si uma manobra de diversão; mas é só para os iludir; não é a verdadeira; não lhes digam nada!