Não sei bem se foi para falar das velhinhas que falei no
responso, ou se foi para falar no
responso que falei nas velhinhas. Esta minha dúvida, porém, não é relevante, pois os meus leitores, amáveis e justos, não vão hesitar, e vão gostar muito mais das velhinhas.
A bem da verdade, eu tive que meter na história o
responso e as velhinhas, muito simplesmente porque o que se conta foi como foi. Foi tudo verdade, excepto aqueles pequenos reparos em que falo de mim, dizendo-me teimoso, quase impaciente, e até casmurro - mas isso você também já percebeu que sou eu a mentir, inventando-me alguns defeitos, para parecer quase humano.
Seguindo em frente, devo dizer-lhe que, mal reli a história, depois de a publicar aqui, logo o
responso se me impôs com um relevo tal, que eu estava longe de imaginar. Sabem muito bem que o
responso é uma oração, neste caso feita a Santo António, para que apareçam coisas perdidas ou para afastar males de que se tem medo. Ora, vai daí, eu pensei logo no meu amigo que andava perdido. Sim, o macaco.
Apesar do que ele me fez, eu não podia ficar de braços cruzados. Já tinha recorrido a tudo. Mas nada. E foi então que, quase em
desespero, e apesar da minha tendência herética, me agarrei ao
responso, naquela atitude pouco ortodoxa, quase oportunista, de que se não fizer bem também não fará mal.
Ensaiei-o três vezes, para não me enganar - que isso deitaria tudo por água abaixo; depois outras
três, para que a convicção soasse sincera - que, se não, não valia; e depois rezei-o três vezes - como tem que ser -, muito concentrado, ajoelhado, de olhos fechados e de mãos postas, erguidas aos céus.
Quando acabei, não ouvi resposta. Mas deixei-me estar mais uns momentos de olhos fechados a meditar. Até que ouvi como que um
roçagar de seda a passar e abri os olhos. Era um papel leve que apanhei e li:
O teu macaco foi rapatado por uma pessoa que mora na "acaciaemflor" e que se assina como GraçaGrega. E logo mais abaixo, em letra mais pequena: -
Não sejas estúpido. Não enganas ninguém, muito menos os céus. O teu responso foi ridículo e burlesco. Nem merecias resposta. Mas as velhinhas de que tu falaste, cegas que estão pelo amor que te dão, acham que mereces. E é só por elas que te transmitimos esta informação confidencial. E fica sabendo que o macaco não é macaco; e tu também não; tu és mais que macaco: és um macacão.Ponham-se no meu lugar e digam lá se o que li não é motivo para um ataque fatal: primeiro a resposta; depois a notícia do rapto; depois as velhinhas; depois o atrevido a chamar-me macaco.
Mas não tive tempo para perder em considerações merecidas. Saltei, pois, correndo à procura dessa malfadada
acácia que, mesmo sendo
graça, me queria desgraçar o macaco. Depressa descobri a morada. Era um
blogue. Fui duro com ela. Exigiu-me resgate. Abdiquei logo de todos os
princípios, e aceitei o suborno do resgate exigido. Que teria de ficar com o macaco até depois do Natal. Aceitei. Mas, ai dela se mo enfeitiça e não mo trata bem. Dou-lhe uma coça a ela, e outra ao macaco.
Só lhes contei isto para que saibam que há sempre alguém como as velhinhas a querer-nos bem; que os
responsos são coisa bem séria; que neste mundo há muita gente má; mas que também há gente muito boa a fazer frente à que é má.
:-)