O senhor macaco é mesmo um perito. Peça central da minha manobra secreta, ele foi exímio na sua eficácia. Eu agradeci-lhe em forma de texto, fazendo justiça à sua figura. Não exagerei nada, embora pareça, na descrição que fiz dele em O macaco e eu.
Eu sei muito bem que ele é curioso, e vai de sala em sala, de estante em estante, de gaveta em gaveta, vasculhando tudo na Casa das Letras, que é um sítio nosso. Tudo o que eu escondo, tudo ele encontra. Mostrei-lhe, então, O macaco e eu, até porque o texto era para ele, e não vale a pena esconder-lhe nada.
Despachou o primeiro parágrafo duma assentada, como que só a fazer-me a vontade. Atirou-se ao segundo, e foi avançando atento, cada vez mais lento, até estacar, numa concentração total, quando o terminou. Titubeou, quase imperceptível, com a emoção, num tremer de lábios. Olhou para mim. Tinha no olhar um brilho de água lustral, tão de humanidade. Eu sorri-lhe meigo. Caiu-lhe então o olhar, turvado de névoa, no terceiro parágrafo, todo desfocado. Para o ajudar a chegar ao fim, apontei-lhe com o dedo, palavra a palavra, que eu ia sussurrando para ele ouvir, como se fosse ele que estivesse a ler.
Quando terminei, ele descompôs-se todo numa emoção franca. Atirou-se a mim. Apertou-me os ossos em ímpeto de abraço muito apertado. Fez das minhas costas tambor ressoante, com a emoção a escapar-lhe em ritmo das suas mãos agitadas. Pescoço inclinado, encostado ao meu, escondia as lágrimas, e emitia uns sons sincopados, que eram juras de agradecimento, e de amizade, e de dedicação eterna e inteira, até ao fim dos tempos. Assim são os homens. Uns sentimentais. Quando a emoção os liberta.
Vou ficar por aqui. Mas já lhes contei que ele anda estranho. Anda mais distante. Até parece que já não quer ser eu. Já sei o que foi. Já descobri tudo. Ele leu qualquer coisa. E acreditou. Alguém o seduziu. Anda apaixonado.
Mas depois lhes conto. E não se preocupem, que o vou curar. Já sei a doença. Já sei a culpada. Que até podem ser várias. Sei o diagnóstico. Elas vão pagá-las. Não se preocupem, que eu vou curá-lo. Elas vão pagá-las.
:-)
sábado, 24 de novembro de 2007
A culpa foi dela
Bom dia.
Deixarei aqui um texto, ainda hoje, em que vou pôr a careca ao léu ao macaco. Ele caiu no truque mais velho e mais lindo do mundo. Eu bem o avisei. Mas ele olhou para mim e disse-me, como se fosse eu:
- Olha quem fala!
:-)
Deixarei aqui um texto, ainda hoje, em que vou pôr a careca ao léu ao macaco. Ele caiu no truque mais velho e mais lindo do mundo. Eu bem o avisei. Mas ele olhou para mim e disse-me, como se fosse eu:
- Olha quem fala!
:-)
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
O ler faz mal
Bom dia!
Vocês nem queiram saber. O macaco agradeceu-me, emocionado, as palavras que lhe dei, jurando-me eterna dedicação inteira. Assim são os homens. Uns sentimentais. E amigos para sempre.
Mas algo estranho está acontecer. Ele já não está tão solidário comigo. Está mais distante. E até parece que não quer ser eu. Ele deve ter lido qualquer coisa que não quer partilhar comigo. Assim são os homens. Uns ciumentos. E amigos, amigos, beijos à parte.
Vou pensar melhor. Mais tarde lhes conto. Mas se for verdade o que eu suspeito, fica provado que o ler faz mal.
Vocês nem queiram saber. O macaco agradeceu-me, emocionado, as palavras que lhe dei, jurando-me eterna dedicação inteira. Assim são os homens. Uns sentimentais. E amigos para sempre.
Mas algo estranho está acontecer. Ele já não está tão solidário comigo. Está mais distante. E até parece que não quer ser eu. Ele deve ter lido qualquer coisa que não quer partilhar comigo. Assim são os homens. Uns ciumentos. E amigos, amigos, beijos à parte.
Vou pensar melhor. Mais tarde lhes conto. Mas se for verdade o que eu suspeito, fica provado que o ler faz mal.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
O macaco e eu
Ninguém vai comentar com desdém, ou sequer insinuar menos apreço, acerca daquele senhor, que apareceu aqui em baixo. Não sei donde ele surgiu. Nem que veio aqui fazer. Mas caiu-me cá em casa, e vou deixá-lo aqui ficar.
Até porque ele aparece com aquele ar pensador, agora tão em desuso; com aquela esperteza no olhar calmo, que se vai tornando rara; com aquelas rugas sábias, de paciente ironia; com aquele sarcasmo tão leve, que chega a parecer que não; com aquele gesto enrolado de mão, sustendo elegante o queixo; com aquela linha de sombra leve, naquela junção de lábios, ondeando a sorrir.
Tem tudo o que parece, este antropóide bonito: a sageza paciente, a elegância natural, a ironia inteligente. Ele é o que parece
Vou ficar mesmo com ele. Não sei bem qual o motivo, mas, para além do que já disse, há um não sei quê, no seu perfil encantador, que me diz para o fazer. E se não fosse cá por coisas, diria até que sou eu. Mas não digo que não posso, pois não quero que me acusem de me estar a engrandecer.
:-)
Até porque ele aparece com aquele ar pensador, agora tão em desuso; com aquela esperteza no olhar calmo, que se vai tornando rara; com aquelas rugas sábias, de paciente ironia; com aquele sarcasmo tão leve, que chega a parecer que não; com aquele gesto enrolado de mão, sustendo elegante o queixo; com aquela linha de sombra leve, naquela junção de lábios, ondeando a sorrir.
Tem tudo o que parece, este antropóide bonito: a sageza paciente, a elegância natural, a ironia inteligente. Ele é o que parece
Vou ficar mesmo com ele. Não sei bem qual o motivo, mas, para além do que já disse, há um não sei quê, no seu perfil encantador, que me diz para o fazer. E se não fosse cá por coisas, diria até que sou eu. Mas não digo que não posso, pois não quero que me acusem de me estar a engrandecer.
:-)
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Uma boa intenção
Tenho a santa intenção de deixar-lhes, ainda hoje, um pequeno texto sobre aquele respeitável senhor que está aqui em baixo.
Não o deixo agora, que está por acabar; e quando o acabasse, iria alterá-lo.
Vocês, por maldade, iam protestar, claro! Sem qualquer razão, mais claro ainda! Por isso, não o deixo aqui agora.
Mas deixo-lhes a tal boa intenção, que já leva ao céu.
É o que dizem!
:-)
Não o deixo agora, que está por acabar; e quando o acabasse, iria alterá-lo.
Vocês, por maldade, iam protestar, claro! Sem qualquer razão, mais claro ainda! Por isso, não o deixo aqui agora.
Mas deixo-lhes a tal boa intenção, que já leva ao céu.
É o que dizem!
:-)
domingo, 18 de novembro de 2007
Sim e não, eis a slolução
in Amanhã - Aventuras num mundo incerto, de Bradley Trevor Greive*, artepluraledições, 1ª. edição, 2004, p. 8
*Natural da Tasmânia; vive em Sidney, na Austrália; gosta de animais; ver www.btgstudios.com
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Eles já vão ver!
Isto é para todos aqueles e aquelas, anónimos ou sucedâneos, que se unirem do lado de lá - em forma de legião conspirativa, céptica e malévola -, contra a minha frágil, crente e inocente pessoa, que está heróica e sozinha do lado de cá. Sendo para todos esses, é principalmente para os dois "Anónimos" e para a Ibel - autores dos três últimos comentários deixados em Boatos e Alegorias, no pobre e indefeso Tempo -, pois eles podem bem ser os chefes da impiedosa e exigente conspiração. Mas é para si também, que, como eu, é inocente e não tem malícia, só para que veja como eles são maus, e como eu sou bonzinho, e como se devem pôr todos do meu lado, rezando por mim. Eu nem ponho aqui os comentários que eles fizeram. Mas eles estão lá, no sítio deles.
Dirigir-me-ei primeiro aos tais dois "Anónimos", como se só estivesse a falar com eles, estando, na verdade, a falar com todos.
- Falo para os dois, mas desde já juro não estar a insinuar que vocês os dois sejam dois em um. O que é isso de me chamarem perito na arte da fuga? E que é isso de me vestirem de barbas de maliciosa inocência? E que é isso de irem aos mares buscar temporais para me retardar?Eu aprecio "A Arte da Fuga", mas não sou fujão; a minha inocência é proverbial, mas, às vezes, tenho que pôr as barbas de molho, por causa da malícia que inventam em mim; os temporais do mar entram-me na alma, assim como a acalmia que eles depois trazem.
Há ainda a Ibel. E a essa não perdoo mesmo, que me fez pensar estar do meu lado, quando, afinal, também está do lado de lá. Bem me enganou! E eu só no fim é que percebi a figura que fiz no que lhe escrevi. Ora vejam bem:
- Ainda bem que você acredita na minha inocência, bem comprovada na coelha branca e no galo em poses de; poses essas que, como diz, e bem, não suscitam nada. Mas as más línguas cépticas não se conformam; não acreditam; só vêem naquilo o que querem ver, e que é o que lá está.Até a cria se põe contra mim. E é sempre assim. Em vez de se pôr do lado de cá, põe-se sistematicamente do lado de lá. E, depois, ainda se ri da habilidade.Eu acho que você também se está a rir agora. Ai, o diabo! Não me diga que também está com os do lado de lá e, porque me sabe inocente, esteve a gozar comigo.Ai, ai, ai,ai, ai ,ai!
Estes anónimos, e esta Ibel, que teimosos são! Tenho que livrar-me deles, e da sua pressão. Nesta brevidade que me envolve, não posso, agora, dar-lhes a história que, provocatórios, merecem e querem.
Mas eu já lhes digo: vou engendrar, com muito cautela, uma infalível manobra de diversão. Vou iludi-los. A eles e aos deles. Mas a você não.
Nem vão dar por ela! Eles já vão ver! E vocês também.
Nota: Esta nota só deve ser lida pelos que estão do lado de cá; e não digam aos outros, aos do lado de lá, que este texto é já ele em si uma manobra de diversão; mas é só para os iludir; não é a verdadeira; não lhes digam nada!
Dirigir-me-ei primeiro aos tais dois "Anónimos", como se só estivesse a falar com eles, estando, na verdade, a falar com todos.
- Falo para os dois, mas desde já juro não estar a insinuar que vocês os dois sejam dois em um. O que é isso de me chamarem perito na arte da fuga? E que é isso de me vestirem de barbas de maliciosa inocência? E que é isso de irem aos mares buscar temporais para me retardar?Eu aprecio "A Arte da Fuga", mas não sou fujão; a minha inocência é proverbial, mas, às vezes, tenho que pôr as barbas de molho, por causa da malícia que inventam em mim; os temporais do mar entram-me na alma, assim como a acalmia que eles depois trazem.
Há ainda a Ibel. E a essa não perdoo mesmo, que me fez pensar estar do meu lado, quando, afinal, também está do lado de lá. Bem me enganou! E eu só no fim é que percebi a figura que fiz no que lhe escrevi. Ora vejam bem:
- Ainda bem que você acredita na minha inocência, bem comprovada na coelha branca e no galo em poses de; poses essas que, como diz, e bem, não suscitam nada. Mas as más línguas cépticas não se conformam; não acreditam; só vêem naquilo o que querem ver, e que é o que lá está.Até a cria se põe contra mim. E é sempre assim. Em vez de se pôr do lado de cá, põe-se sistematicamente do lado de lá. E, depois, ainda se ri da habilidade.Eu acho que você também se está a rir agora. Ai, o diabo! Não me diga que também está com os do lado de lá e, porque me sabe inocente, esteve a gozar comigo.Ai, ai, ai,ai, ai ,ai!
Estes anónimos, e esta Ibel, que teimosos são! Tenho que livrar-me deles, e da sua pressão. Nesta brevidade que me envolve, não posso, agora, dar-lhes a história que, provocatórios, merecem e querem.
Mas eu já lhes digo: vou engendrar, com muito cautela, uma infalível manobra de diversão. Vou iludi-los. A eles e aos deles. Mas a você não.
Nem vão dar por ela! Eles já vão ver! E vocês também.
Nota: Esta nota só deve ser lida pelos que estão do lado de cá; e não digam aos outros, aos do lado de lá, que este texto é já ele em si uma manobra de diversão; mas é só para os iludir; não é a verdadeira; não lhes digam nada!
Subscrever:
Mensagens (Atom)