Vim aqui para lhe deixar aquele tal "Bom dia!", que você merece, e me dá prazer. Mas, uma vez que vim - só para lhe oferecer a simpatia deste meu "Bom dia!" tão especial -, aproveito para lhe dizer que os tais animais já moram aqui há tempo demais.
A culpa é toda do Tempo que , envaidecido, se deixou enrolar na corda do tempo que lhe foram dando. Nós, as Peles, vamos tentar resolver definitivamente a questão. Não vai ser fácil. Mas também temos nisto alguma responsabilidade. Afinal, fomos nós, as Peles, que publicamos a fotografia que o Tempo escolheu.
Eu, cá por mim, voltarei aqui: voltando ao assunto; e voltando a si.
Deixo-o agora com esta promessa tão de manhã, e repetindo o propósito primeiro que me trouxe até aqui:
- Bom dia! Especialmente para si.
:-)
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
domingo, 11 de novembro de 2007
São nada! Isso é loucura!
in Amanhã - Aventuras num mundo incerto, de Bradley Trevor Greive*, artepluraledições, 1ª. edição, 2004, p.20
*Natural da Tasmânia; vive em Sidney, na Austrália; gosta de animais; ver www.btgstudios.com
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Amazona e guerreira
Com o texto Andará a loucura à solta?, publicado aqui nas Peles, pretendi essencialmente lembrar-lhes uma grande obra - O Alienista -, de um grande escritor - Machado de Assis. É uma boa leitura, a todos os títulos. O resumo do enredo que deixei no Tempo é muito pobre, se comparado com a leitura do livro. Façam a experiência, e depois falamos.
Aproveitei também para lembrar a questão real que se põe acerca do Português de Portugal e do Português do Brasil. Não há que temer discutir o assunto. Há é que discuti-lo com lealdade e saber. Sem precipitações. Sem nacionalismos descabidos. E isto refere-se a todas as partes, a começar pelos portugueses. Para bem da língua. Para bem de todos.
Ao contrário do que possa parecer, através das considerações laterais que teci a este propósito em Andará a loucura à solta?, eu acho que nos devemos manter abertos para discutir todas as hipóteses, e todas as razões que estão por detrás dessas hipóteses. E devemos estar dispostos a considerar e a aceitar argumentos seguros opostos aos nossos.
É claro que, se leram o meu texto, sabem muito bem qual a dama que defendo - a Língua Portuguesa. Defendê-la-ei sempre. E se se abrasileirar, eu irei atrás dela. Porque, se gostarmos dela, todos os que a temos, quanto mais brasileira, mais portuguesa; e, quanto mais portuguesa, mais brasileira. A diversidade em unidade será sempre enriquecedora; a diversidade centrífuga, essa talvez não.
Eu, que penso e sinto em português, só posso agradecer aos brasileiros as sonoridades novas que deram à língua que falo ; os ritmos ondulantes que lhe avivaram; as palavras novas que lhe inventaram; a importância socio-cultural imprescindível que lhe acrescentam e dão.
As nossas diferenças, acrescidas das de outras paragens ainda, são afluentes cantantes - umas vezes teimosos, outras vezes rebeldes, e até renitentes -, mas que irão desaguar sempre ao grande Amazonas que é a Língua Portuguesa.
Seria uma pena se esses afluentes se separassem; seria uma pena se o nosso Amazonas se transformasse num rio vulgar. Eu acredito que ainda há amazonas no grande Amazonas que é a língua nossa. E, embora não pareça, elas não vão deixar que tal aconteça.
Aproveitei também para lembrar a questão real que se põe acerca do Português de Portugal e do Português do Brasil. Não há que temer discutir o assunto. Há é que discuti-lo com lealdade e saber. Sem precipitações. Sem nacionalismos descabidos. E isto refere-se a todas as partes, a começar pelos portugueses. Para bem da língua. Para bem de todos.
Ao contrário do que possa parecer, através das considerações laterais que teci a este propósito em Andará a loucura à solta?, eu acho que nos devemos manter abertos para discutir todas as hipóteses, e todas as razões que estão por detrás dessas hipóteses. E devemos estar dispostos a considerar e a aceitar argumentos seguros opostos aos nossos.
É claro que, se leram o meu texto, sabem muito bem qual a dama que defendo - a Língua Portuguesa. Defendê-la-ei sempre. E se se abrasileirar, eu irei atrás dela. Porque, se gostarmos dela, todos os que a temos, quanto mais brasileira, mais portuguesa; e, quanto mais portuguesa, mais brasileira. A diversidade em unidade será sempre enriquecedora; a diversidade centrífuga, essa talvez não.
Eu, que penso e sinto em português, só posso agradecer aos brasileiros as sonoridades novas que deram à língua que falo ; os ritmos ondulantes que lhe avivaram; as palavras novas que lhe inventaram; a importância socio-cultural imprescindível que lhe acrescentam e dão.
As nossas diferenças, acrescidas das de outras paragens ainda, são afluentes cantantes - umas vezes teimosos, outras vezes rebeldes, e até renitentes -, mas que irão desaguar sempre ao grande Amazonas que é a Língua Portuguesa.
Seria uma pena se esses afluentes se separassem; seria uma pena se o nosso Amazonas se transformasse num rio vulgar. Eu acredito que ainda há amazonas no grande Amazonas que é a língua nossa. E, embora não pareça, elas não vão deixar que tal aconteça.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Andará a loucura à solta?
Deixo-os aqui com O Alienista, de Machado de Assis (1839 - 1908). Tenham cuidado. A sua morte foi anunciada. Mas nunca fiar. Ele pode apenas estar a experimentar uma nova teoria sobre a loucura. Acautelem-se, pois!Já há tempos que queria pôr este livro aqui. E até falar dele. Fui adiando. Hoje decidi-me. Ele aqui está. Mas não vou falar dele. Se o ler verá que não é necessário. Ele fala por si. E se já o leu, faça como eu: leia-o outra vez, e outra, e outra.
Como é por de mais sabido, o Machado de Assis é brasileiro, de pai português e de mãe mulata. Sobejamente sabido é também o facto de ele ser um dos primeiríssimos entre os primeiríssimos autores da Literatura de Língua Portuguesa. Disse bem: Literatura de Língua Portuguesa. Não me enganei.
Sei que há quem sustente aquela ideia peregrina de que o falar português à moda do Brasil é já outra língua. Ou, se não é, que virá a ser. Há quem sustente o mesmo com o falar inglês à moda dos Estados Unidos da América do Norte. Os argumentos também são os mesmos. Mas não têm razão.
Os peregrinos dessa tal ideia dão-nos argumentos empolados de grandes roupagens. Mas, quando despidos, não têm peso bastante. Eu compreendo-os. Baseiam-se muito em estatísticas de espaço e de gente; baseiam-se também muito na sua própria vontade, cuja grandeza é inversamente proporcional ao peso dos argumentos que apontam. Mas as estatísticas voluntariosas, regra geral, são enganosas; dão-nos aquilo que já sabemos e queremos provar; ou o seu contrário, caso mudemos de ideias. São muitas vezes um verdadeiro absurdo, uma arbitrariedade, uma caricatura. São como aqueles referendos, cujo resultado não está tanto no voto, mas está muito mais no modo de perguntar.
E onde é que entra aqui O Alienista? Não entra. Mas eu faço-o entrar. Porquê? Porque quero, e porque a sua actualidade mo permite; mas, da actualidade poder-se-á falar depois. Então, não foram forçadas as considerações acerca daquela coisa das "línguas" e dos "argumentos"? Claro que foram. Mas eu avisei, lá em cima, no segundo parágrafo que não ia falar do livro. A culpa foi sua, que não acreditou. Você não tem vergonha? Não pode ao menos apontar duas razões para a sua demagogia? Ora aqui vão elas: primeiro, o Machado de Assis é brasileiro, mas escreveu o livro em português; segundo, o protagonista d' O Alienista é um homem de ciência, e também usa a estatística.
Para terminar, que isto vai longo, volto ao princípio, que é o essencial: acautele-se, que anda a loucura à solta; e leia O Alienista, que isso é que importa.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Grande mestre é o tempo *
1 -As Palavras ditas, que hoje deixei no Tempo, e como facilmente se percebe, eram para ser publicadas a seguir à carta que está logo em baixo. Não o fiz porque, assim de repente, achei mais simples e mais simpático o pequeno texto que lá escrevi. E acho que achei bem.
2 - Penso, contudo, que as Palavras ditas também cabem lá, junto às Palavras escritas, que estão no Tempo. Por isso as deixei tal como estavam, e eram para ficar, no dia em que as escrevi. Acrescentei-lhes apenas os dois últimos parágrafos. Nem fariam falta. Mas nunca se sabe.
3 - Desculpar-me-ão aquelas frases em inglês. Mas há certos momentos que, se vividos intensos numa outra língua, é essa língua que no-los traz à memória, quando nos lembramos deles. Sei que entenderiam. Mas mesmo assim traduzi, à minha maneira, porque sou português, e sou português nesta língua que é nossa. E também para dizer que não é assim tão transcendente, como no-lo querem dar a entender, ter de se saber inglês.
4 - O texto baseia-se em momentos reais, amaciados pelo tempo. Mas eu desconfio daquela realidade que dizem que é nua e crua. Nunca é assim, que nós, ao vivê-la, amassamos nela tanto o que sentimos, como o que sabemos. E, quando a narramos, mais nos metemos nela, escolhendo os momentos, escolhendo o espaço, escolhendo os termos, escolhendo a harmonia com que com que os compomos na pauta da escrita.
5 - Grande mestre é o tempo. Ensina-nos, paciente, a joeirar a vida, apurando o ouro do sentimento e do pensamento. Assim o queiramos. Em tempo útil. Para nosso bem. Para bem dos que connosco se cruzam. E porque o tempo é mestre, no seu joeirar, os dois últimos textos sobre o meu pai, que deixei no Tempo, não me causam dor. Antes memória terna, que reconforta e brinca, que oferece rosas, e sorrisos marotos, com piscares de olho.
*Um cumprimento muito especial para o João Manuel Campos, que não tenho o prazer de conhecer. Foi ele que me "obrigou" a publicar no Tempo as Palavras ditas. Encostou-me à parede com dois argumentos: que o meu pai merecia que eu as pusesse lá; e que ele gosta da minha escrita. Que querem? Eu poderia lá resistir a tais argumentos?
2 - Penso, contudo, que as Palavras ditas também cabem lá, junto às Palavras escritas, que estão no Tempo. Por isso as deixei tal como estavam, e eram para ficar, no dia em que as escrevi. Acrescentei-lhes apenas os dois últimos parágrafos. Nem fariam falta. Mas nunca se sabe.
3 - Desculpar-me-ão aquelas frases em inglês. Mas há certos momentos que, se vividos intensos numa outra língua, é essa língua que no-los traz à memória, quando nos lembramos deles. Sei que entenderiam. Mas mesmo assim traduzi, à minha maneira, porque sou português, e sou português nesta língua que é nossa. E também para dizer que não é assim tão transcendente, como no-lo querem dar a entender, ter de se saber inglês.
4 - O texto baseia-se em momentos reais, amaciados pelo tempo. Mas eu desconfio daquela realidade que dizem que é nua e crua. Nunca é assim, que nós, ao vivê-la, amassamos nela tanto o que sentimos, como o que sabemos. E, quando a narramos, mais nos metemos nela, escolhendo os momentos, escolhendo o espaço, escolhendo os termos, escolhendo a harmonia com que com que os compomos na pauta da escrita.
5 - Grande mestre é o tempo. Ensina-nos, paciente, a joeirar a vida, apurando o ouro do sentimento e do pensamento. Assim o queiramos. Em tempo útil. Para nosso bem. Para bem dos que connosco se cruzam. E porque o tempo é mestre, no seu joeirar, os dois últimos textos sobre o meu pai, que deixei no Tempo, não me causam dor. Antes memória terna, que reconforta e brinca, que oferece rosas, e sorrisos marotos, com piscares de olho.
*Um cumprimento muito especial para o João Manuel Campos, que não tenho o prazer de conhecer. Foi ele que me "obrigou" a publicar no Tempo as Palavras ditas. Encostou-me à parede com dois argumentos: que o meu pai merecia que eu as pusesse lá; e que ele gosta da minha escrita. Que querem? Eu poderia lá resistir a tais argumentos?
sábado, 3 de novembro de 2007
Sentados no cérebro a abanar o rabo
Não gostaram nada do Homo simplex. Fizeram muito bem. É que se tivessem gostado a coisa ia ficar feia. Para as Peles e para o Tempo.
Foi o que me disseram de vários lados e por várias vezes. Uns de viva voz. Mas a maior parte dos avisos foram feitos por telemóvel. Ele tocava, eu atendia, e lá estava uma voz que dizia e dava risinhos:
- Não estás a ouvir uns barulhinhos? Sou eu, um dos ajudantes. Estou a escutar-te.
Perguntei-lhe se não era costume fazerem as escutas sem aviso prévio, e ela disse que sim. Perguntei, então, qual a razão de me avisar a mim. E ela respondeu, alegre e contente:
- É para agradecer aquela coisa do rabo e do cérebro. Nem todos reconhecem as nossas qualidades. Não percebi muito bem aquilo do cérebro na cadeira, nem aquilo do rabo a abanar, mas isso é um pormenor. E só pode ser coisa boa.
Disse-me que também ia telefonar ao Tempo. E, para ficar sossegado, que, como ninguém liga ao que eu escrevo, ia anotar, no seu relatório secreto, que eu poderia, eventualmente, continuar a falar. E, depois, num tom já mais camarada:
- Olha! Mas vou continuar a escutar-te. Para ver se voltas a falar dos nossos rabos agitados e dos nossos cérebros sentados. Gostei daquilo! Não percebi muito bem, mas gostei. Aquilo só pode querer dizer que os nossos rabos são elegantes e ágeis na sua função natural; e que os nossos cérebros, de grandes que são, mudaram de lugar, e nos sentamos neles, para abafar os sons, mas o cheiro não, quando deles se solta um pensamento nosso.
Nota: Isto preciso dum arranjo ainda; mas, para já, fica mesmo assim.
Foi o que me disseram de vários lados e por várias vezes. Uns de viva voz. Mas a maior parte dos avisos foram feitos por telemóvel. Ele tocava, eu atendia, e lá estava uma voz que dizia e dava risinhos:
- Não estás a ouvir uns barulhinhos? Sou eu, um dos ajudantes. Estou a escutar-te.
Perguntei-lhe se não era costume fazerem as escutas sem aviso prévio, e ela disse que sim. Perguntei, então, qual a razão de me avisar a mim. E ela respondeu, alegre e contente:
- É para agradecer aquela coisa do rabo e do cérebro. Nem todos reconhecem as nossas qualidades. Não percebi muito bem aquilo do cérebro na cadeira, nem aquilo do rabo a abanar, mas isso é um pormenor. E só pode ser coisa boa.
Disse-me que também ia telefonar ao Tempo. E, para ficar sossegado, que, como ninguém liga ao que eu escrevo, ia anotar, no seu relatório secreto, que eu poderia, eventualmente, continuar a falar. E, depois, num tom já mais camarada:
- Olha! Mas vou continuar a escutar-te. Para ver se voltas a falar dos nossos rabos agitados e dos nossos cérebros sentados. Gostei daquilo! Não percebi muito bem, mas gostei. Aquilo só pode querer dizer que os nossos rabos são elegantes e ágeis na sua função natural; e que os nossos cérebros, de grandes que são, mudaram de lugar, e nos sentamos neles, para abafar os sons, mas o cheiro não, quando deles se solta um pensamento nosso.
Nota: Isto preciso dum arranjo ainda; mas, para já, fica mesmo assim.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Homo simplex
Ele teme muito que se possa manchar a sua figura tão construída, que tanto lhe custou a criar, e que tanto lhe custa a manter. Teme-se particularmente de personagens capazes de crítica.
Em tom de chacota, a disfarçar receio, chama-lhes fictícias, como, por exemplo, Peles e Tempos, que isso não é nome de gente; no juízo dele, as verdadeiras, essas são as que o adoram, e só essas são gente.
Ora, essas senhoras Peles e esses senhores Tempos andam por aí a dizer mal dele: quando ele aparece, eles lá estão elas e eles, de crítica afiada, a denegrir-lhe a imagem; quando ele fala, lá estão elas e eles, de lição estudada, a dizer que ele mente; quando ele escreve, lá estão elas e eles, de insinuações malévolas, a dizer que não foi ele; quando ele promete, lá estão elas e eles, sempre a dizer que ele não cumpre. Sempre elas primeiro; sempre eles depois.
Depois de muito ouvir, irritou-se. E, como não tinha respostas para dar, disse para si mesmo à socapa, num dia em que estava no seu gabinete a fazer exercícios de colocação de voz:
- Tenho que calar esses arremedos de gente; tenho que calar essas Peles; tenho que calar esses Tempos.
Fez uma pausa, dado o esforço que lhe exigiu o dizer; limpou o suor, num gesto estudado; e continuou pensativo:
- Os que os ouvem, às Peles e aos Tempos, ficam a saber, já que, mesmo quando não usam grandes argumentos, dizem o que sentem, e falam verdade. E os que os ouvem, e ficam a saber, podem muito bem ir contar a outros.
Fez outra pausa, muito mais cansada, doutro tanto esforço; foi ao espelho que disse bem dele; perguntou ao cão, e ele disse que sim; ficou animado, e saiu-lhe esta pérola a sorrir:
- Tenho que os calar. Não por acto censório, que eu sou democrata, mas para bem deles, e para proveito meu e dos meus, e a bem da nação.
De seguida, abriu a janela que dava para o seu quintal e assobiou. Ao primeiro assobio, os seus ajudantes acorreram arfantes, com a língua pendente, salivando contentes, de rabo a abanar. Como deve ser. E ele ordenou-lhes, então, com aquele tom de autoridade, que os assessores bem pagos, e os jornalistas amigos, dizem que ele tem:
- Ide e procurai-me as Peles; as Peles e o Tempo; quero resultados; quero estatísticas. De sucesso, ouviram? E tragam-me soluções para lhes cortar a voz. Radicais, ouviram? E agora levantem lá, dessas cadeiras minhas, esses cérebros vossos em que vocês se sentam, e toca a despachar. Já!
Nota: Hoje as Peles e o Tempo não sou eu; sou eu e sois vós; somos nós.
Em tom de chacota, a disfarçar receio, chama-lhes fictícias, como, por exemplo, Peles e Tempos, que isso não é nome de gente; no juízo dele, as verdadeiras, essas são as que o adoram, e só essas são gente.
Ora, essas senhoras Peles e esses senhores Tempos andam por aí a dizer mal dele: quando ele aparece, eles lá estão elas e eles, de crítica afiada, a denegrir-lhe a imagem; quando ele fala, lá estão elas e eles, de lição estudada, a dizer que ele mente; quando ele escreve, lá estão elas e eles, de insinuações malévolas, a dizer que não foi ele; quando ele promete, lá estão elas e eles, sempre a dizer que ele não cumpre. Sempre elas primeiro; sempre eles depois.
Depois de muito ouvir, irritou-se. E, como não tinha respostas para dar, disse para si mesmo à socapa, num dia em que estava no seu gabinete a fazer exercícios de colocação de voz:
- Tenho que calar esses arremedos de gente; tenho que calar essas Peles; tenho que calar esses Tempos.
Fez uma pausa, dado o esforço que lhe exigiu o dizer; limpou o suor, num gesto estudado; e continuou pensativo:
- Os que os ouvem, às Peles e aos Tempos, ficam a saber, já que, mesmo quando não usam grandes argumentos, dizem o que sentem, e falam verdade. E os que os ouvem, e ficam a saber, podem muito bem ir contar a outros.
Fez outra pausa, muito mais cansada, doutro tanto esforço; foi ao espelho que disse bem dele; perguntou ao cão, e ele disse que sim; ficou animado, e saiu-lhe esta pérola a sorrir:
- Tenho que os calar. Não por acto censório, que eu sou democrata, mas para bem deles, e para proveito meu e dos meus, e a bem da nação.
De seguida, abriu a janela que dava para o seu quintal e assobiou. Ao primeiro assobio, os seus ajudantes acorreram arfantes, com a língua pendente, salivando contentes, de rabo a abanar. Como deve ser. E ele ordenou-lhes, então, com aquele tom de autoridade, que os assessores bem pagos, e os jornalistas amigos, dizem que ele tem:
- Ide e procurai-me as Peles; as Peles e o Tempo; quero resultados; quero estatísticas. De sucesso, ouviram? E tragam-me soluções para lhes cortar a voz. Radicais, ouviram? E agora levantem lá, dessas cadeiras minhas, esses cérebros vossos em que vocês se sentam, e toca a despachar. Já!
Nota: Hoje as Peles e o Tempo não sou eu; sou eu e sois vós; somos nós.
domingo, 28 de outubro de 2007
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
José Afonso morreu, mas os sonhos não
A Maria Eduarda Taveira Barbosa - assim se assina -, teve a amabilidade de me fazer chegar ontem às mãos, por interposta pessoa, o suplemento Cultura, do Diário do Minho, de 17 de Outubro. Ela publica, nesse Suplemento, um artigo, Balada de Outono, que é uma evocação emotiva de José Afonso, poeta e cantor.
Nessa evocação sentida, ela fala dela e dele, falando com ele, mas de tal modo que a emoção não perturba a escrita.
Isto, para além da simpática dedicatória que ela escreve a tinta, por cima do título, chamando-me, imerecidamente, “amante da liberdade”, seria o bastante para eu ler o texto atento.
Há, ainda, nesse seu texto, dois momentos que particularmente me tocam. O primeiro é quando a autora cita o seu amigo Daniel Sá: Quando ele morreu, eu ouvi a notícia na rádio, cheguei à escola (minha mulher já estava na sala), e disse-lhe só isto - “Já morreu!”. O segundo momento acontece quando ela fala numa vitrina, onde vê não sei se um cartaz com a imagem do José Afonso, ou com a letra duma canção dele, ou as duas coisas, e, ao vê-lo, desata a cantar: Águas das fontes calai / Oh, ribeiras, chorai / Que eu não volto a cantar.
Como o Daniel Sá, também eu ia de carro, quando ouvi a notícia. Um fogo no peito começou-me a queimar, e duas lágrimas quentes rolaram-me mansas. Não eram tanto pelo poeta e cantor. Eram mais por mim. Eram mais por nós. Ele eram poemas, ele eram canções, ele eram bandeiras; ele eram sonhos, tão sem rumo já, mas tão multicores, que negros abutres iam disputando, mascarando-se das cores que traíam.
Não podia ser. E eu reagi. Desandei para a berma. E parei o carro. Rapei da carteira de fósforos, e rabisquei na capa uma frase que tinha uma causa - que eram os abutres; e um desejo profético – que eram canções grávidas de sonhos. À noite, em casa, o telefone tocava e dizia – O José Afonso morreu! ; e eu respondia - Mas os sonhos não!
As Águas das fontes calai / Oh ribeiras chorai , essas trazem-me à memória as imagens do último concerto em que o José Afonso literalmente cantou Que eu não volto a cantar. Ele sabia que não era um adeus, mas sim o adeus. E todos sabiam. E ele cantava, dizendo adeus sem dizer adeus; e o palco, que era feito de gente, também cantava, dizendo-lhe adeus, sem dizer adeus; e a plateia, que era um mar de gente ainda com vaga, cantava, dizendo-lhe adeus sem dizer adeus. Não era preciso, que a canção bastava. E essas imagens levam-me a outras personagens com quem me cruzei pela vida fora. Mas isso é já outra história.
Para terminar, a Maria Eduarda Taveira Barbosa, socorrendo-se de palavras de Urbano Tavares Rodrigues, diz: José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga. É uma pena que agora a massa seja surda e muda, não avance e recue, em vagas rasas e escuras. Mas o mar é sonho. E o sonho não morre. E eu sei que um dia ele vai acordar de marés mais vivas.
Nota: 1 - Eu sei que o texto é longo e que demora a ler, mas o que é que esperavam?; 2 –agradeço à Maria Eduarda Taveira Barbosa, o artigo, a dedicatória e a oportunidade que me deu para tecer estas considerações; 3 – agradeço a todos a paciência da espera, e a paciência de lerem, se é que a tiveram.
Nessa evocação sentida, ela fala dela e dele, falando com ele, mas de tal modo que a emoção não perturba a escrita.
Isto, para além da simpática dedicatória que ela escreve a tinta, por cima do título, chamando-me, imerecidamente, “amante da liberdade”, seria o bastante para eu ler o texto atento.
Há, ainda, nesse seu texto, dois momentos que particularmente me tocam. O primeiro é quando a autora cita o seu amigo Daniel Sá: Quando ele morreu, eu ouvi a notícia na rádio, cheguei à escola (minha mulher já estava na sala), e disse-lhe só isto - “Já morreu!”. O segundo momento acontece quando ela fala numa vitrina, onde vê não sei se um cartaz com a imagem do José Afonso, ou com a letra duma canção dele, ou as duas coisas, e, ao vê-lo, desata a cantar: Águas das fontes calai / Oh, ribeiras, chorai / Que eu não volto a cantar.
Como o Daniel Sá, também eu ia de carro, quando ouvi a notícia. Um fogo no peito começou-me a queimar, e duas lágrimas quentes rolaram-me mansas. Não eram tanto pelo poeta e cantor. Eram mais por mim. Eram mais por nós. Ele eram poemas, ele eram canções, ele eram bandeiras; ele eram sonhos, tão sem rumo já, mas tão multicores, que negros abutres iam disputando, mascarando-se das cores que traíam.
Não podia ser. E eu reagi. Desandei para a berma. E parei o carro. Rapei da carteira de fósforos, e rabisquei na capa uma frase que tinha uma causa - que eram os abutres; e um desejo profético – que eram canções grávidas de sonhos. À noite, em casa, o telefone tocava e dizia – O José Afonso morreu! ; e eu respondia - Mas os sonhos não!
As Águas das fontes calai / Oh ribeiras chorai , essas trazem-me à memória as imagens do último concerto em que o José Afonso literalmente cantou Que eu não volto a cantar. Ele sabia que não era um adeus, mas sim o adeus. E todos sabiam. E ele cantava, dizendo adeus sem dizer adeus; e o palco, que era feito de gente, também cantava, dizendo-lhe adeus, sem dizer adeus; e a plateia, que era um mar de gente ainda com vaga, cantava, dizendo-lhe adeus sem dizer adeus. Não era preciso, que a canção bastava. E essas imagens levam-me a outras personagens com quem me cruzei pela vida fora. Mas isso é já outra história.
Para terminar, a Maria Eduarda Taveira Barbosa, socorrendo-se de palavras de Urbano Tavares Rodrigues, diz: José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga. É uma pena que agora a massa seja surda e muda, não avance e recue, em vagas rasas e escuras. Mas o mar é sonho. E o sonho não morre. E eu sei que um dia ele vai acordar de marés mais vivas.
Nota: 1 - Eu sei que o texto é longo e que demora a ler, mas o que é que esperavam?; 2 –agradeço à Maria Eduarda Taveira Barbosa, o artigo, a dedicatória e a oportunidade que me deu para tecer estas considerações; 3 – agradeço a todos a paciência da espera, e a paciência de lerem, se é que a tiveram.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Um hábito que é "Bom dia!"
Tenho o hábito de dizer sempre "Bom dia!", seja lá a hora que for. É uma mania que eu tenho, cá pelas minhas razões, e que provoca reacções, ora de cores de vistas largas, ora doutras mais bem curtas. Delas também sei as razões. Mas as razões de que falo são toda uma outra história, de que um dia falarei.
Agora já nesta hora, o que lhes posso deixar é mesmo um "Bom dia!" sonoro.
É um cumprimento banal, se dito com displicência, apenas por desfastio, apenas por obrigação, apenas para marcar o ponto, apenas por distracção.
Não é tal o que aqui deixo, agora já nesta hora, para si que aqui já veio, e encontrou fria e vazia, a página que merecia, com um "Bom dia", só para si. E o mesmo para si também, que se atrasou um pouco mais, e só agora aqui chegou.
Um "Bom dia" para vocês. Mas não o deixo vulgar, que vulgares vocês não são. Deixo-o com simpatia, e um sorriso nos lábios, manifestando o desejo que ele seja mesmo bom, e lhes traga alegria, e boa disposição. Mas se não puder trazer tudo aquilo que vocês merecem, que lhes traga ao menos parte, mesmo que muito pequena, das coisas que lhes desejo.
Mas não fiquem aí especados, à espera que tudo aconteça. Basta, por vezes, abrirmos a janela onde escondemos aquilo que pensamos e sentimos, e guardamos só para nós. Mas também não há que dizer tudo, pondo tudo a descoberto, que há sempre uma reserva, essa sim que é só nossa. Por vezes essa janela, abre-se com um telefonema. É tão fácil! Tão fácil que até parece uma coisa bem difícil.
Porém fácil, mesmo fácil, será virem aqui, deixando-me só um "Bom dia!", qual o que eu lhes deixo agora. E pode até acontecer, que, se voltarem cá, eu escreva mais aqui, hoje aqui e para vocês.
:-)
Agora já nesta hora, o que lhes posso deixar é mesmo um "Bom dia!" sonoro.
É um cumprimento banal, se dito com displicência, apenas por desfastio, apenas por obrigação, apenas para marcar o ponto, apenas por distracção.
Não é tal o que aqui deixo, agora já nesta hora, para si que aqui já veio, e encontrou fria e vazia, a página que merecia, com um "Bom dia", só para si. E o mesmo para si também, que se atrasou um pouco mais, e só agora aqui chegou.
Um "Bom dia" para vocês. Mas não o deixo vulgar, que vulgares vocês não são. Deixo-o com simpatia, e um sorriso nos lábios, manifestando o desejo que ele seja mesmo bom, e lhes traga alegria, e boa disposição. Mas se não puder trazer tudo aquilo que vocês merecem, que lhes traga ao menos parte, mesmo que muito pequena, das coisas que lhes desejo.
Mas não fiquem aí especados, à espera que tudo aconteça. Basta, por vezes, abrirmos a janela onde escondemos aquilo que pensamos e sentimos, e guardamos só para nós. Mas também não há que dizer tudo, pondo tudo a descoberto, que há sempre uma reserva, essa sim que é só nossa. Por vezes essa janela, abre-se com um telefonema. É tão fácil! Tão fácil que até parece uma coisa bem difícil.
Porém fácil, mesmo fácil, será virem aqui, deixando-me só um "Bom dia!", qual o que eu lhes deixo agora. E pode até acontecer, que, se voltarem cá, eu escreva mais aqui, hoje aqui e para vocês.
:-)
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Apontamentos breves
1 - Os deuses da montanha existem mesmo. Não é que eles me aliviaram da carga granítica que levei comigo de fim de semana? Só deixaram que me lembrasse dele em Galafura, no alto do monte, mas para o mandar calar, que a eternidade dele era outra, mais funda ainda que a do Torga. Ele ficou vaidoso, e deixou-me em paz.
2 - Se os deuses existem, e eu sei que sim - e até falo com eles -, então os milagres também. Eles têm que os fazer. É a sua obrigação. E não é que ao chegar aqui agora, vi que houve mesmo milagre? Fui ver o tal Granito que levei na cabeça comigo, e não é que ele está já todo ali, na forma de comentários, por mãos anónimas escritos, que, a não serem de deuses, só poderão ser de fadas.
3 - As fotografias no Tempo são uma simples referência aos sítios por onde andei, durante o fim de semana.
A segunda que aparece, mas que na verdade é a primeira, pretende apenas mostrar o monte no primeiro plano, e a a forma que tem. Se olharmos com atenção, que foi o que o Torga fez, aquilo é mesmo navio, de casco invertido ou não. E, como lá diz o outro: Vê navio, é navio! E não se discute mais.
Para mais facilmente passarem da montanha ao navio, subam a plataforma onde está o pequeno marco geodésico lá no extremo. Fica a poucos metros e é fácil. Depois debrucem-se, braços pousados no topo plano do marco, e é só olhar em frente, para se sentirem Á proa dum navio de penedos, agarrados ao seu leme.
A primeira fotografia, que na verdade é a segunda, pretende mostrar o cais humano, de socalcos e vinhedos, com todos os cheiros da terra e da vida.
As fotografias pretendem apenas mostrar o navio a quem souber ver; os socalcos e vinhedos a quem os souber olhar; os cheiros a quem os souber sentir ali perto, e adivinhar mais ao longe. A estética foi sacrificada, que a máquina é daquelas de levar no bolso. E para piorar a fama do "artista", ainda tive que diminuir a qualidade das mesmas, para me caberem mais duas ou três.
4 - Que o Torga me perdoe por lhe andar a mudar versos para cima e para baixo, e por ir cortando uns, para os ir ligando a outros. Mas todas as palavras são dele, e todas estão no poema S. Leonardo de Galafura. Perdoem-me também os amantes de Torga. Principalmente aqueles que gostam de peregrinar pelos itinerários dele. Não foi Torga que me levou ao monte, nem sequer o monte a ele; não foi o poema que me levou ao monte, nem o monte ao poema, que o poema é mais que o monte, e o monte mais que o poema.
5 - Agradeço os comentários que aqui foram deixando durante os últimos dias, e aos quais não respondi ainda. A todos responderei. Apareceu um nome novo, e dois já mais dos princípios, que andavam arredios. O que interessa é que voltaram. O que interessa é que outros venham. Este lugar é de todos, e para todos há lugar.
2 - Se os deuses existem, e eu sei que sim - e até falo com eles -, então os milagres também. Eles têm que os fazer. É a sua obrigação. E não é que ao chegar aqui agora, vi que houve mesmo milagre? Fui ver o tal Granito que levei na cabeça comigo, e não é que ele está já todo ali, na forma de comentários, por mãos anónimas escritos, que, a não serem de deuses, só poderão ser de fadas.
3 - As fotografias no Tempo são uma simples referência aos sítios por onde andei, durante o fim de semana.
A segunda que aparece, mas que na verdade é a primeira, pretende apenas mostrar o monte no primeiro plano, e a a forma que tem. Se olharmos com atenção, que foi o que o Torga fez, aquilo é mesmo navio, de casco invertido ou não. E, como lá diz o outro: Vê navio, é navio! E não se discute mais.
Para mais facilmente passarem da montanha ao navio, subam a plataforma onde está o pequeno marco geodésico lá no extremo. Fica a poucos metros e é fácil. Depois debrucem-se, braços pousados no topo plano do marco, e é só olhar em frente, para se sentirem Á proa dum navio de penedos, agarrados ao seu leme.
A primeira fotografia, que na verdade é a segunda, pretende mostrar o cais humano, de socalcos e vinhedos, com todos os cheiros da terra e da vida.
As fotografias pretendem apenas mostrar o navio a quem souber ver; os socalcos e vinhedos a quem os souber olhar; os cheiros a quem os souber sentir ali perto, e adivinhar mais ao longe. A estética foi sacrificada, que a máquina é daquelas de levar no bolso. E para piorar a fama do "artista", ainda tive que diminuir a qualidade das mesmas, para me caberem mais duas ou três.
4 - Que o Torga me perdoe por lhe andar a mudar versos para cima e para baixo, e por ir cortando uns, para os ir ligando a outros. Mas todas as palavras são dele, e todas estão no poema S. Leonardo de Galafura. Perdoem-me também os amantes de Torga. Principalmente aqueles que gostam de peregrinar pelos itinerários dele. Não foi Torga que me levou ao monte, nem sequer o monte a ele; não foi o poema que me levou ao monte, nem o monte ao poema, que o poema é mais que o monte, e o monte mais que o poema.
5 - Agradeço os comentários que aqui foram deixando durante os últimos dias, e aos quais não respondi ainda. A todos responderei. Apareceu um nome novo, e dois já mais dos princípios, que andavam arredios. O que interessa é que voltaram. O que interessa é que outros venham. Este lugar é de todos, e para todos há lugar.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Eu não vou desistir dele
Aquele Granito ali em baixo pesa mais do que eu pensei. Enganou-me, o maroto, com seu ritmo enganador, de harmonia popular. Não sei se me enganou por amuos, de eu o pensar ligeiro - o que seria culpa minha; ou seria por melindre, de ninguém ter ido a ele, deixando umas palavrinhas - o que seria culpa de quem?
Seja qual for a razão, não pense o Senhor Granito, que eu vou desistir dele. Vou deixá-lo a marinar uns tempos na minha cabeça. Por isso o levarei comigo para todo o lado que vá.
Trouxe-o comigo hoje, para as bandas de Vila Real. Já o passeei pela Régua. E mostrei-lhe o rio do ouro, e vou-lho mostrar mais vezes, que ele se avista ao longe. Já lhe mostrei os vinhedos, mas ele mandou-me às favas, dizendo que quer ver é os meus. Vou levá-lo a Galafura, a ver se o Torga me ajuda. Ou então até ao Vesúvio, não vá ele temer-se do Torga. Tenho é que o levar a um monte que fique bem lá no alto.
Andarei com ele às costas, ande eu por onde andar. E ele não se livrará de mim. Nem eu me livrarei dele, até ao dia em que o sirva, aqui pronto nesta mesa.
Por isso, Senhor Granito, não se arme em difícil, e deixe-se lá de amuos, e deite fora os melindres. E veja lá se fica leve, sim?
:-)
Seja qual for a razão, não pense o Senhor Granito, que eu vou desistir dele. Vou deixá-lo a marinar uns tempos na minha cabeça. Por isso o levarei comigo para todo o lado que vá.
Trouxe-o comigo hoje, para as bandas de Vila Real. Já o passeei pela Régua. E mostrei-lhe o rio do ouro, e vou-lho mostrar mais vezes, que ele se avista ao longe. Já lhe mostrei os vinhedos, mas ele mandou-me às favas, dizendo que quer ver é os meus. Vou levá-lo a Galafura, a ver se o Torga me ajuda. Ou então até ao Vesúvio, não vá ele temer-se do Torga. Tenho é que o levar a um monte que fique bem lá no alto.
Andarei com ele às costas, ande eu por onde andar. E ele não se livrará de mim. Nem eu me livrarei dele, até ao dia em que o sirva, aqui pronto nesta mesa.
Por isso, Senhor Granito, não se arme em difícil, e deixe-se lá de amuos, e deite fora os melindres. E veja lá se fica leve, sim?
:-)
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Inacabado e sem título
Quando amanhã vires
Por mero acaso
Este granito
Se ele existir
Fica a saber
Que eu o marquei
Com sangue da alma
Espalmado na mão
Para ele durar
No seu sono longo
E de mim te (lembrar?/falar?/ lembrares?)
(A continuar brevemente; pode acontecer que altere o que já está escrito; mas a ideia central, essa não)
Por mero acaso
Este granito
Se ele existir
Fica a saber
Que eu o marquei
Com sangue da alma
Espalmado na mão
Para ele durar
No seu sono longo
E de mim te (lembrar?/falar?/ lembrares?)
(A continuar brevemente; pode acontecer que altere o que já está escrito; mas a ideia central, essa não)
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
O prazer será sempre meu
Eu tinha dito aqui, que nenhum dos meus amigos, conhecidos e outros tais, sabia que eu, qual cavaleiro da triste figura, andava por estas bandas, vestido de TempoBreve. Mas dois deles vieram cá anteontem, e deixaram comentário, um no Tempo outro nas Peles. Eu soube logo quem eram, e tive de lhes dizer quem é que eu era também. E uma vez que disse a esses, tive de o dizer a outros , como manda a cortesia.
Assim, a partir de agora, eu sei que estou a escrever para os queridos desconhecidos, que até aqui me acompanharam; mas também para os meus amigos, conhecidos e mais ou menos, que porventura aqui venham.
Sejam conhecidos ou não, amigos ou assim-assim, a todos receberei com subida estimação. E estaria mentindo, se não dissesse, agora, que me sentirei muito honrado, sempre que vocês aqui venham. Se vierem, agradeço. Mas eu estarei por cá, sempre à espera que venham. E será sempre um prazer.
Até sempre e um abraço.
Assim, a partir de agora, eu sei que estou a escrever para os queridos desconhecidos, que até aqui me acompanharam; mas também para os meus amigos, conhecidos e mais ou menos, que porventura aqui venham.
Sejam conhecidos ou não, amigos ou assim-assim, a todos receberei com subida estimação. E estaria mentindo, se não dissesse, agora, que me sentirei muito honrado, sempre que vocês aqui venham. Se vierem, agradeço. Mas eu estarei por cá, sempre à espera que venham. E será sempre um prazer.
Até sempre e um abraço.
domingo, 14 de outubro de 2007
Entre terra e céu
Das raízes na terra que a seguram e a alimentam; do caule que se ergue, dando-lhe alento; dos ramos que se abrem, abraçando a vida; das folhas que crescem, bebendo ar e luz; dos frutos que tão doces cria, e depois nos dá; das cores tão de encanto de que se veste a dizer adeus; da esperança serena num homem que a ame terno, que a ampare e a ajude a passar o inverno. Assim nossa vida, uma vida inteira, nesta maravilha que é uma videira.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Eu só ofereço do que gosto mais
Só posso agradecer os comentários simpáticos que me foram deixando nestes últimos dias. E reparei que comentaram também textos mais antigos, o que foi surpresa. A todos darei sempre resposta.
Gostaria também de dizer que sei que o que verdadeiramente me dão é simpatia na forma de comentários. Essa simpatia - e também a daqueles que porventura cá venham e não deixem notícia da sua passagem -, é-me muito cara, até porque vem de pessoas que não conheço, nem elas a mim. E essa é talvez a mais forte razão do meu agradecer sincero, a todos, e sem distinção.
Nunca publicitei, pelo menos de forma directa, nem as Peles, nem o Tempo. E assim será sempre.
As pessoas que me conhecem, têm de mim o que quiserem ter. Conhecem-me os fígados, para os odiar ou amar. Mas vocês, que só daqui me conhecem, têm apenas de mim as minhas palavras. Não lhes posso dar mais; nem vocês a mim pedir-me mais. A não ser palavras. E o que elas transportam. Por isso é que elas serão sempre, e principalmente, a vocês dirigidas.
Serão sempre vossas, para gostarem delas; serão sempre vossas, para discordarem delas; serão sempre vossas, para as criticarem; serão sempre vossas para as renegarem; Serão sempre vossas, para as matarem, não as querendo ler, não lhes dando vida.
Acima de tudo, serão sempre vossas,porque eu gosto delas, e eu só ofereço do que gosto mais.
Gostaria também de dizer que sei que o que verdadeiramente me dão é simpatia na forma de comentários. Essa simpatia - e também a daqueles que porventura cá venham e não deixem notícia da sua passagem -, é-me muito cara, até porque vem de pessoas que não conheço, nem elas a mim. E essa é talvez a mais forte razão do meu agradecer sincero, a todos, e sem distinção.
Nunca publicitei, pelo menos de forma directa, nem as Peles, nem o Tempo. E assim será sempre.
As pessoas que me conhecem, têm de mim o que quiserem ter. Conhecem-me os fígados, para os odiar ou amar. Mas vocês, que só daqui me conhecem, têm apenas de mim as minhas palavras. Não lhes posso dar mais; nem vocês a mim pedir-me mais. A não ser palavras. E o que elas transportam. Por isso é que elas serão sempre, e principalmente, a vocês dirigidas.
Serão sempre vossas, para gostarem delas; serão sempre vossas, para discordarem delas; serão sempre vossas, para as criticarem; serão sempre vossas para as renegarem; Serão sempre vossas, para as matarem, não as querendo ler, não lhes dando vida.
Acima de tudo, serão sempre vossas,porque eu gosto delas, e eu só ofereço do que gosto mais.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
O sal da terra
Aquele rapaz tinha o diabo metido no corpo. Lembrava-se das coisas mais espantosas. Desde bem menino.
Um dia, nem ele sabe que idade teria, fez-se sozinho ao carreiro de terra batida, que ligava a casa da mãe à casa da avó,vencendo socalco atrás de socalco, por aquela encosta acima. A distância não era assim muita, mas para tão tenra idade , era como se a casa da avó ficasse do outro lado do mundo.
Não se lembra do caminho no momento em que o fez. Não se lembra da chegada. Não se lembra da avó como ela era, nem da surpresa que ela teve, de o ver aparecer, sem ninguém a acompanhá-lo. Não se lembra da razão,ou se houve sequer razão, para se ter posto a caminho. Era tudo muito vago, e tudo isso caiu no esquecimento, que os cérebros meninos só guardam o que é importante.
Sabe é que chegou à casa da avó e que a avó estava lá. E que, sem qualquer resquício de hesitação, desengatilhou logo ali aquela lengalenga, costumeira na aldeia, que sabia de cor, de tanto a ouvir à gente mais moça que, a mando dos pais, ia pedir favor a vizinho, e que era assim:
- Vinha aqui, que disse minha mãe, a ver se fazia o favor, de me emprestar um bocadinho de sal, para pôr no caldo, que o nosso acabou, e que lho mandava logo, quando fosse à venda para o comprar.
A mãe não havia dito nada. E ele não sabe como é que aquilo lhe veio à cabeça. Sabe é que a avó, crédula nos costumes e na inocência dele, lhe entregou o sal pedido,num embrulho que fez de papel grosso e velho.
Feita a conquista do bem precioso,o rapaz partiu,mas não no sentido inverso do caminho que o tinha trazido até ali. Contornou a casa da avó pela esquerda, e tomou o caminho do monte. Mas em breve o deixou, atalhando por entre urzes e tojos até ao cimo da encosta, arranhando-se todo.
Uma vez lá no alto, procurou um sítio de terra mais mole, e mais despido de vegetação. Esgravatou, esforçado, com os dedos das mãos, até eles sangrarem, feridos nas arestas finas do quartzo quebradiço que desenterrava. Mas não desistiu até ter cova bastante. Dispôs nela o sal,com muito cuidado,que depois alisou com a mão espalmada. Cobriu-o, depois, com uma camada da terra mais fina. E dali em diante passou a ir todos os dias àquele sítio mágico para ver se o esperado milagre estava já a acontecer.
Quando a avó e a mãe do mágico rapaz souberam daquela mentira inocente, que foi o pedido do empréstimo do sal, quiseram saber o que é que ele tinha feito dele. E ele as levou ao cimo do monte. E lhes mostrou o sítio exacto onde o tinha semeado. E quando a mãe se baixou para o desenterrar, a avó impediu-a, tomando-lhe o braço e dizendo:
- Não faças isso. Não toques no sal. Olha que ele já deve estar quase a nascer.
Um dia, nem ele sabe que idade teria, fez-se sozinho ao carreiro de terra batida, que ligava a casa da mãe à casa da avó,vencendo socalco atrás de socalco, por aquela encosta acima. A distância não era assim muita, mas para tão tenra idade , era como se a casa da avó ficasse do outro lado do mundo.
Não se lembra do caminho no momento em que o fez. Não se lembra da chegada. Não se lembra da avó como ela era, nem da surpresa que ela teve, de o ver aparecer, sem ninguém a acompanhá-lo. Não se lembra da razão,ou se houve sequer razão, para se ter posto a caminho. Era tudo muito vago, e tudo isso caiu no esquecimento, que os cérebros meninos só guardam o que é importante.
Sabe é que chegou à casa da avó e que a avó estava lá. E que, sem qualquer resquício de hesitação, desengatilhou logo ali aquela lengalenga, costumeira na aldeia, que sabia de cor, de tanto a ouvir à gente mais moça que, a mando dos pais, ia pedir favor a vizinho, e que era assim:
- Vinha aqui, que disse minha mãe, a ver se fazia o favor, de me emprestar um bocadinho de sal, para pôr no caldo, que o nosso acabou, e que lho mandava logo, quando fosse à venda para o comprar.
A mãe não havia dito nada. E ele não sabe como é que aquilo lhe veio à cabeça. Sabe é que a avó, crédula nos costumes e na inocência dele, lhe entregou o sal pedido,num embrulho que fez de papel grosso e velho.
Feita a conquista do bem precioso,o rapaz partiu,mas não no sentido inverso do caminho que o tinha trazido até ali. Contornou a casa da avó pela esquerda, e tomou o caminho do monte. Mas em breve o deixou, atalhando por entre urzes e tojos até ao cimo da encosta, arranhando-se todo.
Uma vez lá no alto, procurou um sítio de terra mais mole, e mais despido de vegetação. Esgravatou, esforçado, com os dedos das mãos, até eles sangrarem, feridos nas arestas finas do quartzo quebradiço que desenterrava. Mas não desistiu até ter cova bastante. Dispôs nela o sal,com muito cuidado,que depois alisou com a mão espalmada. Cobriu-o, depois, com uma camada da terra mais fina. E dali em diante passou a ir todos os dias àquele sítio mágico para ver se o esperado milagre estava já a acontecer.
Quando a avó e a mãe do mágico rapaz souberam daquela mentira inocente, que foi o pedido do empréstimo do sal, quiseram saber o que é que ele tinha feito dele. E ele as levou ao cimo do monte. E lhes mostrou o sítio exacto onde o tinha semeado. E quando a mãe se baixou para o desenterrar, a avó impediu-a, tomando-lhe o braço e dizendo:
- Não faças isso. Não toques no sal. Olha que ele já deve estar quase a nascer.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Mulher
Um luar de gaivotas
Voando desejos
Por sobre os canaviais
Um coração gritando
Sonhos floridos
Em botão de roseirais
Borboletas errando
Em liberdade querida
E em asas de vento
E em searas de vida
Voando desejos
Por sobre os canaviais
Um coração gritando
Sonhos floridos
Em botão de roseirais
Borboletas errando
Em liberdade querida
E em asas de vento
E em searas de vida
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Cá para mim é mulher
Era um daqueles dias em que me perco de tudo e ando quilómetros sozinho na praia, a ver se encontro as notas do som do mar. Tento até o cantochão. Mas por mais que eu encontre, mais me falta encontrar. Tento então a minha voz, invento novas palavras, mas por mais que eu invente, mais me falta inventar. Porém eu nunca desisto, e volta e meia insisto nestas minhas tentativas.
Era um daqueles dias. Quando cheguei à penedia, que é onde sempre chego, estava a maré muito baixa, em dia de marés vivas. Por isso andei mar adentro, de penedo em penedo, mais longe do que é costume. Esqueci-me, então, da música, e virei-me para a escultura, começando a buscar formas, no todo ou em pormenores. E tirei fotografias, que ficaram esquecidas durante semanas a fio.
Tudo estava muito bem, até que me lembrei delas, e lá as fui procurar para deixar uma aqui. Entre as primeiras que vi, estavam as Silhuetas, que logo aqui vos deixei, como certamente já viram.
Só depois de as publicar é que comecei a duvidar das formas que lá estão. E eu que não sou D. Quixote, embora gostasse de ser, não posso dizer que o que vejo é aquilo que lá está. Por isso eu já não sei bem se aquilo são penedos, se gigantes de perfil, ou se homens disfarçados, de pescoço distendido e olhar embevecido para o espaço que há entre eles. Por isso eu já não sei bem se o espaço que os separa é simplesmente céu, mar e pedra, ou se é escultura grega, no vazio desenhada; ou se sereia ladina, com cores de modernidade, a encantar pobres mortais; ou será mesmo mulher, desnudando vestes de água, até ao ponto exacto onde a tentação cai mais?
Cá para mim é mulher, mas não posso dizer tal, quando não ainda dizem que tenho algum distúrbio mental. Mas se disserem que digam, que um distúrbio mental, se causado por mulher, parece-me natural.
Era um daqueles dias. A música levou-me à escultura, a escultura à fotografia, a fotografia à mulher. Um percurso bem normal.
:-)
Era um daqueles dias. Quando cheguei à penedia, que é onde sempre chego, estava a maré muito baixa, em dia de marés vivas. Por isso andei mar adentro, de penedo em penedo, mais longe do que é costume. Esqueci-me, então, da música, e virei-me para a escultura, começando a buscar formas, no todo ou em pormenores. E tirei fotografias, que ficaram esquecidas durante semanas a fio.
Tudo estava muito bem, até que me lembrei delas, e lá as fui procurar para deixar uma aqui. Entre as primeiras que vi, estavam as Silhuetas, que logo aqui vos deixei, como certamente já viram.
Só depois de as publicar é que comecei a duvidar das formas que lá estão. E eu que não sou D. Quixote, embora gostasse de ser, não posso dizer que o que vejo é aquilo que lá está. Por isso eu já não sei bem se aquilo são penedos, se gigantes de perfil, ou se homens disfarçados, de pescoço distendido e olhar embevecido para o espaço que há entre eles. Por isso eu já não sei bem se o espaço que os separa é simplesmente céu, mar e pedra, ou se é escultura grega, no vazio desenhada; ou se sereia ladina, com cores de modernidade, a encantar pobres mortais; ou será mesmo mulher, desnudando vestes de água, até ao ponto exacto onde a tentação cai mais?
Cá para mim é mulher, mas não posso dizer tal, quando não ainda dizem que tenho algum distúrbio mental. Mas se disserem que digam, que um distúrbio mental, se causado por mulher, parece-me natural.
Era um daqueles dias. A música levou-me à escultura, a escultura à fotografia, a fotografia à mulher. Um percurso bem normal.
:-)
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
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