1 - Os deuses da montanha existem mesmo. Não é que eles me aliviaram da carga granítica que levei comigo de fim de semana? Só deixaram que me lembrasse dele em Galafura, no alto do monte, mas para o mandar calar, que a eternidade dele era outra, mais funda ainda que a do Torga. Ele ficou vaidoso, e deixou-me em paz.
2 - Se os deuses existem, e eu sei que sim - e até falo com eles -, então os milagres também. Eles têm que os fazer. É a sua obrigação. E não é que ao chegar aqui agora, vi que houve mesmo milagre? Fui ver o tal Granito que levei na cabeça comigo, e não é que ele está já todo ali, na forma de comentários, por mãos anónimas escritos, que, a não serem de deuses, só poderão ser de fadas.
3 - As fotografias no Tempo são uma simples referência aos sítios por onde andei, durante o fim de semana.
A segunda que aparece, mas que na verdade é a primeira, pretende apenas mostrar o monte no primeiro plano, e a a forma que tem. Se olharmos com atenção, que foi o que o Torga fez, aquilo é mesmo navio, de casco invertido ou não. E, como lá diz o outro: Vê navio, é navio! E não se discute mais.
Para mais facilmente passarem da montanha ao navio, subam a plataforma onde está o pequeno marco geodésico lá no extremo. Fica a poucos metros e é fácil. Depois debrucem-se, braços pousados no topo plano do marco, e é só olhar em frente, para se sentirem Á proa dum navio de penedos, agarrados ao seu leme.
A primeira fotografia, que na verdade é a segunda, pretende mostrar o cais humano, de socalcos e vinhedos, com todos os cheiros da terra e da vida.
As fotografias pretendem apenas mostrar o navio a quem souber ver; os socalcos e vinhedos a quem os souber olhar; os cheiros a quem os souber sentir ali perto, e adivinhar mais ao longe. A estética foi sacrificada, que a máquina é daquelas de levar no bolso. E para piorar a fama do "artista", ainda tive que diminuir a qualidade das mesmas, para me caberem mais duas ou três.
4 - Que o Torga me perdoe por lhe andar a mudar versos para cima e para baixo, e por ir cortando uns, para os ir ligando a outros. Mas todas as palavras são dele, e todas estão no poema S. Leonardo de Galafura. Perdoem-me também os amantes de Torga. Principalmente aqueles que gostam de peregrinar pelos itinerários dele. Não foi Torga que me levou ao monte, nem sequer o monte a ele; não foi o poema que me levou ao monte, nem o monte ao poema, que o poema é mais que o monte, e o monte mais que o poema.
5 - Agradeço os comentários que aqui foram deixando durante os últimos dias, e aos quais não respondi ainda. A todos responderei. Apareceu um nome novo, e dois já mais dos princípios, que andavam arredios. O que interessa é que voltaram. O que interessa é que outros venham. Este lugar é de todos, e para todos há lugar.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Eu não vou desistir dele
Aquele Granito ali em baixo pesa mais do que eu pensei. Enganou-me, o maroto, com seu ritmo enganador, de harmonia popular. Não sei se me enganou por amuos, de eu o pensar ligeiro - o que seria culpa minha; ou seria por melindre, de ninguém ter ido a ele, deixando umas palavrinhas - o que seria culpa de quem?
Seja qual for a razão, não pense o Senhor Granito, que eu vou desistir dele. Vou deixá-lo a marinar uns tempos na minha cabeça. Por isso o levarei comigo para todo o lado que vá.
Trouxe-o comigo hoje, para as bandas de Vila Real. Já o passeei pela Régua. E mostrei-lhe o rio do ouro, e vou-lho mostrar mais vezes, que ele se avista ao longe. Já lhe mostrei os vinhedos, mas ele mandou-me às favas, dizendo que quer ver é os meus. Vou levá-lo a Galafura, a ver se o Torga me ajuda. Ou então até ao Vesúvio, não vá ele temer-se do Torga. Tenho é que o levar a um monte que fique bem lá no alto.
Andarei com ele às costas, ande eu por onde andar. E ele não se livrará de mim. Nem eu me livrarei dele, até ao dia em que o sirva, aqui pronto nesta mesa.
Por isso, Senhor Granito, não se arme em difícil, e deixe-se lá de amuos, e deite fora os melindres. E veja lá se fica leve, sim?
:-)
Seja qual for a razão, não pense o Senhor Granito, que eu vou desistir dele. Vou deixá-lo a marinar uns tempos na minha cabeça. Por isso o levarei comigo para todo o lado que vá.
Trouxe-o comigo hoje, para as bandas de Vila Real. Já o passeei pela Régua. E mostrei-lhe o rio do ouro, e vou-lho mostrar mais vezes, que ele se avista ao longe. Já lhe mostrei os vinhedos, mas ele mandou-me às favas, dizendo que quer ver é os meus. Vou levá-lo a Galafura, a ver se o Torga me ajuda. Ou então até ao Vesúvio, não vá ele temer-se do Torga. Tenho é que o levar a um monte que fique bem lá no alto.
Andarei com ele às costas, ande eu por onde andar. E ele não se livrará de mim. Nem eu me livrarei dele, até ao dia em que o sirva, aqui pronto nesta mesa.
Por isso, Senhor Granito, não se arme em difícil, e deixe-se lá de amuos, e deite fora os melindres. E veja lá se fica leve, sim?
:-)
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Inacabado e sem título
Quando amanhã vires
Por mero acaso
Este granito
Se ele existir
Fica a saber
Que eu o marquei
Com sangue da alma
Espalmado na mão
Para ele durar
No seu sono longo
E de mim te (lembrar?/falar?/ lembrares?)
(A continuar brevemente; pode acontecer que altere o que já está escrito; mas a ideia central, essa não)
Por mero acaso
Este granito
Se ele existir
Fica a saber
Que eu o marquei
Com sangue da alma
Espalmado na mão
Para ele durar
No seu sono longo
E de mim te (lembrar?/falar?/ lembrares?)
(A continuar brevemente; pode acontecer que altere o que já está escrito; mas a ideia central, essa não)
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
O prazer será sempre meu
Eu tinha dito aqui, que nenhum dos meus amigos, conhecidos e outros tais, sabia que eu, qual cavaleiro da triste figura, andava por estas bandas, vestido de TempoBreve. Mas dois deles vieram cá anteontem, e deixaram comentário, um no Tempo outro nas Peles. Eu soube logo quem eram, e tive de lhes dizer quem é que eu era também. E uma vez que disse a esses, tive de o dizer a outros , como manda a cortesia.
Assim, a partir de agora, eu sei que estou a escrever para os queridos desconhecidos, que até aqui me acompanharam; mas também para os meus amigos, conhecidos e mais ou menos, que porventura aqui venham.
Sejam conhecidos ou não, amigos ou assim-assim, a todos receberei com subida estimação. E estaria mentindo, se não dissesse, agora, que me sentirei muito honrado, sempre que vocês aqui venham. Se vierem, agradeço. Mas eu estarei por cá, sempre à espera que venham. E será sempre um prazer.
Até sempre e um abraço.
Assim, a partir de agora, eu sei que estou a escrever para os queridos desconhecidos, que até aqui me acompanharam; mas também para os meus amigos, conhecidos e mais ou menos, que porventura aqui venham.
Sejam conhecidos ou não, amigos ou assim-assim, a todos receberei com subida estimação. E estaria mentindo, se não dissesse, agora, que me sentirei muito honrado, sempre que vocês aqui venham. Se vierem, agradeço. Mas eu estarei por cá, sempre à espera que venham. E será sempre um prazer.
Até sempre e um abraço.
domingo, 14 de outubro de 2007
Entre terra e céu
Das raízes na terra que a seguram e a alimentam; do caule que se ergue, dando-lhe alento; dos ramos que se abrem, abraçando a vida; das folhas que crescem, bebendo ar e luz; dos frutos que tão doces cria, e depois nos dá; das cores tão de encanto de que se veste a dizer adeus; da esperança serena num homem que a ame terno, que a ampare e a ajude a passar o inverno. Assim nossa vida, uma vida inteira, nesta maravilha que é uma videira.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Eu só ofereço do que gosto mais
Só posso agradecer os comentários simpáticos que me foram deixando nestes últimos dias. E reparei que comentaram também textos mais antigos, o que foi surpresa. A todos darei sempre resposta.
Gostaria também de dizer que sei que o que verdadeiramente me dão é simpatia na forma de comentários. Essa simpatia - e também a daqueles que porventura cá venham e não deixem notícia da sua passagem -, é-me muito cara, até porque vem de pessoas que não conheço, nem elas a mim. E essa é talvez a mais forte razão do meu agradecer sincero, a todos, e sem distinção.
Nunca publicitei, pelo menos de forma directa, nem as Peles, nem o Tempo. E assim será sempre.
As pessoas que me conhecem, têm de mim o que quiserem ter. Conhecem-me os fígados, para os odiar ou amar. Mas vocês, que só daqui me conhecem, têm apenas de mim as minhas palavras. Não lhes posso dar mais; nem vocês a mim pedir-me mais. A não ser palavras. E o que elas transportam. Por isso é que elas serão sempre, e principalmente, a vocês dirigidas.
Serão sempre vossas, para gostarem delas; serão sempre vossas, para discordarem delas; serão sempre vossas, para as criticarem; serão sempre vossas para as renegarem; Serão sempre vossas, para as matarem, não as querendo ler, não lhes dando vida.
Acima de tudo, serão sempre vossas,porque eu gosto delas, e eu só ofereço do que gosto mais.
Gostaria também de dizer que sei que o que verdadeiramente me dão é simpatia na forma de comentários. Essa simpatia - e também a daqueles que porventura cá venham e não deixem notícia da sua passagem -, é-me muito cara, até porque vem de pessoas que não conheço, nem elas a mim. E essa é talvez a mais forte razão do meu agradecer sincero, a todos, e sem distinção.
Nunca publicitei, pelo menos de forma directa, nem as Peles, nem o Tempo. E assim será sempre.
As pessoas que me conhecem, têm de mim o que quiserem ter. Conhecem-me os fígados, para os odiar ou amar. Mas vocês, que só daqui me conhecem, têm apenas de mim as minhas palavras. Não lhes posso dar mais; nem vocês a mim pedir-me mais. A não ser palavras. E o que elas transportam. Por isso é que elas serão sempre, e principalmente, a vocês dirigidas.
Serão sempre vossas, para gostarem delas; serão sempre vossas, para discordarem delas; serão sempre vossas, para as criticarem; serão sempre vossas para as renegarem; Serão sempre vossas, para as matarem, não as querendo ler, não lhes dando vida.
Acima de tudo, serão sempre vossas,porque eu gosto delas, e eu só ofereço do que gosto mais.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
O sal da terra
Aquele rapaz tinha o diabo metido no corpo. Lembrava-se das coisas mais espantosas. Desde bem menino.
Um dia, nem ele sabe que idade teria, fez-se sozinho ao carreiro de terra batida, que ligava a casa da mãe à casa da avó,vencendo socalco atrás de socalco, por aquela encosta acima. A distância não era assim muita, mas para tão tenra idade , era como se a casa da avó ficasse do outro lado do mundo.
Não se lembra do caminho no momento em que o fez. Não se lembra da chegada. Não se lembra da avó como ela era, nem da surpresa que ela teve, de o ver aparecer, sem ninguém a acompanhá-lo. Não se lembra da razão,ou se houve sequer razão, para se ter posto a caminho. Era tudo muito vago, e tudo isso caiu no esquecimento, que os cérebros meninos só guardam o que é importante.
Sabe é que chegou à casa da avó e que a avó estava lá. E que, sem qualquer resquício de hesitação, desengatilhou logo ali aquela lengalenga, costumeira na aldeia, que sabia de cor, de tanto a ouvir à gente mais moça que, a mando dos pais, ia pedir favor a vizinho, e que era assim:
- Vinha aqui, que disse minha mãe, a ver se fazia o favor, de me emprestar um bocadinho de sal, para pôr no caldo, que o nosso acabou, e que lho mandava logo, quando fosse à venda para o comprar.
A mãe não havia dito nada. E ele não sabe como é que aquilo lhe veio à cabeça. Sabe é que a avó, crédula nos costumes e na inocência dele, lhe entregou o sal pedido,num embrulho que fez de papel grosso e velho.
Feita a conquista do bem precioso,o rapaz partiu,mas não no sentido inverso do caminho que o tinha trazido até ali. Contornou a casa da avó pela esquerda, e tomou o caminho do monte. Mas em breve o deixou, atalhando por entre urzes e tojos até ao cimo da encosta, arranhando-se todo.
Uma vez lá no alto, procurou um sítio de terra mais mole, e mais despido de vegetação. Esgravatou, esforçado, com os dedos das mãos, até eles sangrarem, feridos nas arestas finas do quartzo quebradiço que desenterrava. Mas não desistiu até ter cova bastante. Dispôs nela o sal,com muito cuidado,que depois alisou com a mão espalmada. Cobriu-o, depois, com uma camada da terra mais fina. E dali em diante passou a ir todos os dias àquele sítio mágico para ver se o esperado milagre estava já a acontecer.
Quando a avó e a mãe do mágico rapaz souberam daquela mentira inocente, que foi o pedido do empréstimo do sal, quiseram saber o que é que ele tinha feito dele. E ele as levou ao cimo do monte. E lhes mostrou o sítio exacto onde o tinha semeado. E quando a mãe se baixou para o desenterrar, a avó impediu-a, tomando-lhe o braço e dizendo:
- Não faças isso. Não toques no sal. Olha que ele já deve estar quase a nascer.
Um dia, nem ele sabe que idade teria, fez-se sozinho ao carreiro de terra batida, que ligava a casa da mãe à casa da avó,vencendo socalco atrás de socalco, por aquela encosta acima. A distância não era assim muita, mas para tão tenra idade , era como se a casa da avó ficasse do outro lado do mundo.
Não se lembra do caminho no momento em que o fez. Não se lembra da chegada. Não se lembra da avó como ela era, nem da surpresa que ela teve, de o ver aparecer, sem ninguém a acompanhá-lo. Não se lembra da razão,ou se houve sequer razão, para se ter posto a caminho. Era tudo muito vago, e tudo isso caiu no esquecimento, que os cérebros meninos só guardam o que é importante.
Sabe é que chegou à casa da avó e que a avó estava lá. E que, sem qualquer resquício de hesitação, desengatilhou logo ali aquela lengalenga, costumeira na aldeia, que sabia de cor, de tanto a ouvir à gente mais moça que, a mando dos pais, ia pedir favor a vizinho, e que era assim:
- Vinha aqui, que disse minha mãe, a ver se fazia o favor, de me emprestar um bocadinho de sal, para pôr no caldo, que o nosso acabou, e que lho mandava logo, quando fosse à venda para o comprar.
A mãe não havia dito nada. E ele não sabe como é que aquilo lhe veio à cabeça. Sabe é que a avó, crédula nos costumes e na inocência dele, lhe entregou o sal pedido,num embrulho que fez de papel grosso e velho.
Feita a conquista do bem precioso,o rapaz partiu,mas não no sentido inverso do caminho que o tinha trazido até ali. Contornou a casa da avó pela esquerda, e tomou o caminho do monte. Mas em breve o deixou, atalhando por entre urzes e tojos até ao cimo da encosta, arranhando-se todo.
Uma vez lá no alto, procurou um sítio de terra mais mole, e mais despido de vegetação. Esgravatou, esforçado, com os dedos das mãos, até eles sangrarem, feridos nas arestas finas do quartzo quebradiço que desenterrava. Mas não desistiu até ter cova bastante. Dispôs nela o sal,com muito cuidado,que depois alisou com a mão espalmada. Cobriu-o, depois, com uma camada da terra mais fina. E dali em diante passou a ir todos os dias àquele sítio mágico para ver se o esperado milagre estava já a acontecer.
Quando a avó e a mãe do mágico rapaz souberam daquela mentira inocente, que foi o pedido do empréstimo do sal, quiseram saber o que é que ele tinha feito dele. E ele as levou ao cimo do monte. E lhes mostrou o sítio exacto onde o tinha semeado. E quando a mãe se baixou para o desenterrar, a avó impediu-a, tomando-lhe o braço e dizendo:
- Não faças isso. Não toques no sal. Olha que ele já deve estar quase a nascer.
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