quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Inacabado e sem título

Quando amanhã vires
Por mero acaso
Este granito
Se ele existir
Fica a saber
Que eu o marquei
Com sangue da alma
Espalmado na mão
Para ele durar
No seu sono longo
E de mim te (lembrar?/falar?/ lembrares?)

(A continuar brevemente; pode acontecer que altere o que já está escrito; mas a ideia central, essa não)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O prazer será sempre meu

Eu tinha dito aqui, que nenhum dos meus amigos, conhecidos e outros tais, sabia que eu, qual cavaleiro da triste figura, andava por estas bandas, vestido de TempoBreve. Mas dois deles vieram cá anteontem, e deixaram comentário, um no Tempo outro nas Peles. Eu soube logo quem eram, e tive de lhes dizer quem é que eu era também. E uma vez que disse a esses, tive de o dizer a outros , como manda a cortesia.
Assim, a partir de agora, eu sei que estou a escrever para os queridos desconhecidos, que até aqui me acompanharam; mas também para os meus amigos, conhecidos e mais ou menos, que porventura aqui venham.
Sejam conhecidos ou não, amigos ou assim-assim, a todos receberei com subida estimação. E estaria mentindo, se não dissesse, agora, que me sentirei muito honrado, sempre que vocês aqui venham. Se vierem, agradeço. Mas eu estarei por cá, sempre à espera que venham. E será sempre um prazer.
Até sempre e um abraço.

domingo, 14 de outubro de 2007

Entre terra e céu


Das raízes na terra que a seguram e a alimentam; do caule que se ergue, dando-lhe alento; dos ramos que se abrem, abraçando a vida; das folhas que crescem, bebendo ar e luz; dos frutos que tão doces cria, e depois nos dá; das cores tão de encanto de que se veste a dizer adeus; da esperança serena num homem que a ame terno, que a ampare e a ajude a passar o inverno. Assim nossa vida, uma vida inteira, nesta maravilha que é uma videira.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Eu só ofereço do que gosto mais

Só posso agradecer os comentários simpáticos que me foram deixando nestes últimos dias. E reparei que comentaram também textos mais antigos, o que foi surpresa. A todos darei sempre resposta.
Gostaria também de dizer que sei que o que verdadeiramente me dão é simpatia na forma de comentários. Essa simpatia - e também a daqueles que porventura cá venham e não deixem notícia da sua passagem -, é-me muito cara, até porque vem de pessoas que não conheço, nem elas a mim. E essa é talvez a mais forte razão do meu agradecer sincero, a todos, e sem distinção.
Nunca publicitei, pelo menos de forma directa, nem as Peles, nem o Tempo. E assim será sempre.
As pessoas que me conhecem, têm de mim o que quiserem ter. Conhecem-me os fígados, para os odiar ou amar. Mas vocês, que só daqui me conhecem, têm apenas de mim as minhas palavras. Não lhes posso dar mais; nem vocês a mim pedir-me mais. A não ser palavras. E o que elas transportam. Por isso é que elas serão sempre, e principalmente, a vocês dirigidas.
Serão sempre vossas, para gostarem delas; serão sempre vossas, para discordarem delas; serão sempre vossas, para as criticarem; serão sempre vossas para as renegarem; Serão sempre vossas, para as matarem, não as querendo ler, não lhes dando vida.
Acima de tudo, serão sempre vossas,porque eu gosto delas, e eu só ofereço do que gosto mais.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

O sal da terra

Aquele rapaz tinha o diabo metido no corpo. Lembrava-se das coisas mais espantosas. Desde bem menino.
Um dia, nem ele sabe que idade teria, fez-se sozinho ao carreiro de terra batida, que ligava a casa da mãe à casa da avó,vencendo socalco atrás de socalco, por aquela encosta acima. A distância não era assim muita, mas para tão tenra idade , era como se a casa da avó ficasse do outro lado do mundo.
Não se lembra do caminho no momento em que o fez. Não se lembra da chegada. Não se lembra da avó como ela era, nem da surpresa que ela teve, de o ver aparecer, sem ninguém a acompanhá-lo. Não se lembra da razão,ou se houve sequer razão, para se ter posto a caminho. Era tudo muito vago, e tudo isso caiu no esquecimento, que os cérebros meninos só guardam o que é importante.
Sabe é que chegou à casa da avó e que a avó estava lá. E que, sem qualquer resquício de hesitação, desengatilhou logo ali aquela lengalenga, costumeira na aldeia, que sabia de cor, de tanto a ouvir à gente mais moça que, a mando dos pais, ia pedir favor a vizinho, e que era assim:
- Vinha aqui, que disse minha mãe, a ver se fazia o favor, de me emprestar um bocadinho de sal, para pôr no caldo, que o nosso acabou, e que lho mandava logo, quando fosse à venda para o comprar.
A mãe não havia dito nada. E ele não sabe como é que aquilo lhe veio à cabeça. Sabe é que a avó, crédula nos costumes e na inocência dele, lhe entregou o sal pedido,num embrulho que fez de papel grosso e velho.
Feita a conquista do bem precioso,o rapaz partiu,mas não no sentido inverso do caminho que o tinha trazido até ali. Contornou a casa da avó pela esquerda, e tomou o caminho do monte. Mas em breve o deixou, atalhando por entre urzes e tojos até ao cimo da encosta, arranhando-se todo.
Uma vez lá no alto, procurou um sítio de terra mais mole, e mais despido de vegetação. Esgravatou, esforçado, com os dedos das mãos, até eles sangrarem, feridos nas arestas finas do quartzo quebradiço que desenterrava. Mas não desistiu até ter cova bastante. Dispôs nela o sal,com muito cuidado,que depois alisou com a mão espalmada. Cobriu-o, depois, com uma camada da terra mais fina. E dali em diante passou a ir todos os dias àquele sítio mágico para ver se o esperado milagre estava já a acontecer.
Quando a avó e a mãe do mágico rapaz souberam daquela mentira inocente, que foi o pedido do empréstimo do sal, quiseram saber o que é que ele tinha feito dele. E ele as levou ao cimo do monte. E lhes mostrou o sítio exacto onde o tinha semeado. E quando a mãe se baixou para o desenterrar, a avó impediu-a, tomando-lhe o braço e dizendo:
- Não faças isso. Não toques no sal. Olha que ele já deve estar quase a nascer.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Mulher

Um luar de gaivotas
Voando desejos
Por sobre os canaviais

Um coração gritando
Sonhos floridos
Em botão de roseirais

Borboletas errando
Em liberdade querida
E em asas de vento
E em searas de vida

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Cá para mim é mulher

Era um daqueles dias em que me perco de tudo e ando quilómetros sozinho na praia, a ver se encontro as notas do som do mar. Tento até o cantochão. Mas por mais que eu encontre, mais me falta encontrar. Tento então a minha voz, invento novas palavras, mas por mais que eu invente, mais me falta inventar. Porém eu nunca desisto, e volta e meia insisto nestas minhas tentativas.
Era um daqueles dias. Quando cheguei à penedia, que é onde sempre chego, estava a maré muito baixa, em dia de marés vivas. Por isso andei mar adentro, de penedo em penedo, mais longe do que é costume. Esqueci-me, então, da música, e virei-me para a escultura, começando a buscar formas, no todo ou em pormenores. E tirei fotografias, que ficaram esquecidas durante semanas a fio.
Tudo estava muito bem, até que me lembrei delas, e lá as fui procurar para deixar uma aqui. Entre as primeiras que vi, estavam as Silhuetas, que logo aqui vos deixei, como certamente já viram.
Só depois de as publicar é que comecei a duvidar das formas que lá estão. E eu que não sou D. Quixote, embora gostasse de ser, não posso dizer que o que vejo é aquilo que lá está. Por isso eu já não sei bem se aquilo são penedos, se gigantes de perfil, ou se homens disfarçados, de pescoço distendido e olhar embevecido para o espaço que há entre eles. Por isso eu já não sei bem se o espaço que os separa é simplesmente céu, mar e pedra, ou se é escultura grega, no vazio desenhada; ou se sereia ladina, com cores de modernidade, a encantar pobres mortais; ou será mesmo mulher, desnudando vestes de água, até ao ponto exacto onde a tentação cai mais?
Cá para mim é mulher, mas não posso dizer tal, quando não ainda dizem que tenho algum distúrbio mental. Mas se disserem que digam, que um distúrbio mental, se causado por mulher, parece-me natural.
Era um daqueles dias. A música levou-me à escultura, a escultura à fotografia, a fotografia à mulher. Um percurso bem normal.
:-)