segunda-feira, 24 de setembro de 2007

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Aquela velha e ousada senhora

Viram a fotografia no Tempo? Esta é outra, mas é quase igual. Também podia chamar-se O rapaz da camisola verde, mas dei-lhe outro nome, que vai dar ao mesmo.
Existem nesta variações ínfimas de pormenor, que simbolizam dimensões do tempo.
Há na fotografia um passado já morto, representado nos montículos cónicos de feixes de palha de milho, e no espigueiro, que vão desfilando em cortejo saudoso e cómico.
Há também um presente um tanto descabelado, representado ali ao fundo e à esquerda; há um presente naquele mar de gente que se adivinha, em festas ainda de povo; há ainda um presente de pais que encavalitam os filhos, para que fiquem mais protegidos, e para que vejam mais longe, e para que vejam melhor.
E há no conjunto um futuro incerto, para novos e velhos, e já magoado por feridas presentes, que temos de começar a sarar, desde já, e a reconstruir, animados por aquela ousada e velha senhora chamada utopia, a qual está inscrita na camisola que se cola ao rapaz.
Que o rapaz da camisola verde seja o nosso porta-bandeira!

Nota: Isto faz-me lembrar, não sei bem porquê, aquela história de gigantes e anões. Mas isso é outra história.

domingo, 16 de setembro de 2007

Amizade em forma de pedra

Não sei se sabem, mas deviam saber, que eu muitas vezes não ando com telemóvel. E, quando ando, ou está desligado, ou está em silêncio. É quase sempre assim. Depois eu vejo quem telefonou e decido se ligo de volta ou não. Leio as mensagens escritas, e respondo ou não, mas as de voz, essas não as ouço. Com esta simpatia toda tão social, até já tem havido quem se tenha queixado. Mas sem razão, não acham?
Ora aconteceu ontem, eram 22:09, estava eu na festa, e vou ver as horas, que é uma grande utilidade que o telemóvel tem. Estava a piscar. Estavam-me a ligar. Vi logo quem era. Era um meu amigo que tinha ido de férias para longe. Sorri porque já sabia qual era o convite que me ia fazer, e preparei-me para dizer-lhe que não, que não podia, que me ia deitar tarde. Atendi:
- Então?! Como está o meu amigo? Correu tudo bem?
- Correu, sim. Olhe, deixe-se de coisas. Amanhã lá estamos. Vou buscá-lo a casa às 14:00. Às 15:30 estamos no buraco um. Acabamos pelas 18:30, que é uma hora muito boa para acabar. Você vai no banco de trás para não olhar para o conta quilómetros.
- Lamento, mas amanhã não posso. Vou-me deitar-me tarde.
- E eu nem me vou deitar. Vá! Deixe-se de tretas. Amanhã às 14:00.
- Mas eu nem estou em casa. Nem estou na cidade.
- Eu também não. Às 14:00. Está combinado.
- Onde raio é que você está?
- Estou no aeroporto do Dubai. Às 14:00. Está combinado.
Dei uma gargalhada, e disse que sim. Se ele estava no Dubai e vinha, eu também podia bem vir do sítio onde estava. E às 15:30 demos a primeira pancada. Fomos o terror do campo nesta tarde de hoje. No fim, esse meu amigo tirou um saco do carro e entregou-mo dizendo:
- Isto é para si.
- Para mim? O que é?
- Uma pedra e uma garrafa de areia. São do deserto. Apanhei-as eu.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O amor é assim, e bendito seja

É assim o amor. Sem reservas nem concessões, ele bate á porta; sem se saber quando; sem se saber onde. E nem põe a hipótese de que a porta não se possa abrir. Malandro, ele, que, no momento em que bate, já sabe que entrou. E assim deve ser.
Traz tudo consigo: todos os sentires que nos atropelam tontos ; todos os sonhares que do corpo voam procurando alma. Deixa-nos assim, como que sem jeito.
Não é culpa nossa, antes desejo mágico, que ele entre assim pela porta aberta. E é aberta que ela deve estar. Mesmo sabendo que ele, traquinas, pode bem partir. E ficarão saudades das cores com que nos pintou, dos perfumes com que nos banhou, dos afagos com que nos tocou, dos sabores com que nos enebriou, das músicas com que nos cativou.
Será grande a tristeza? Será. Mas bendita. Que ao nos afogarmos nela sabemos que sabemos o que já tivemos no lugar que é dela. E isso é um grande bem. E um altar onde, devotos, podemos pedir milagres, pois sabemos que eles existem. E que os sonhos não morrem.
E, depois desta tontice, não me posso assinar como"Anónimo"; seja, então, "António".

Notas: 1- Texto tal como foi publicado no blog da sonhadora, altardasaudade, nos comentários referentes ao poema Efemeridades, de 12 de junho; 2 - Acrescentei apenas o título; 3 - Deixo-o aqui, pois acho que ele mantém alguma especificidade, não obstante a pretensão que eu tive de substituí-lo em absoluto pela versão que deixei no Tempo, e a que dei o título de Bendito seja o amor; 4 - Se os compararem, dirão da sua justiça; 5 - Mencionei a sonhadora, com o assentimento dela ; 5 - E agradeço-lhe, pois este texto aqui, tal como está, nasceu dum improviso, que não emendei, e que me assaltou depois de ter lido o poema já referido.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Gigante de pedra

O Gigante de pedra contempla o mar. Ele sabe os segredos da vida e da espuma, da brisa e da bruma. Conhece os anseios dos nossos avós e, consolando-nos, fala-nos deles, enquanto promete que aos nossos netos falará de nós. Por isso gostamos de o escutar, quando junto a ele, ou ao colo dele, nos vamos sentar. Dê por onde der, conte o que contar, ele acaba sempre por falar de si, por falar de mim, por falar de nós. Você nunca ouviu?

sábado, 11 de agosto de 2007

Desculpas, ameaça e promessa

1 – As minhas desculpas

Peço desculpa pela má educação de há já muitos dias não ter deixado nada de novo para quem tenha vindo aqui. É o tempo de Agosto que tem outro ritmo para mim. Um ritmo mais de água e monte, mais de olhar e pasmar. Um ritmo outro que me dá forças. Não existe para mim um Agosto que não seja assim. Mas isto não justifica uma ausência tal. E logo no momento em que uma ou duas pessoas me estava a “visitar”.

2 – Uma ameaça

O Tempo refere-se a mim num pejorativo o tal das Peles. Não lhe liguem. É ciumeira. Mas se ele continua com essa mania, eu ainda lhes conto a verdadeira história da minhoca e do boi. Sim, que aquilo, ao contrário do que ele quer fazer crer, não foi inventado, e tem personagens reais. Ele resumiu aquilo muito simpaticamente para o cábula. Mas a história não foi bem assim. Ele que não se cale, e logo verá! Não sei se repararam que ele, ao contrário de mim, não é nada simpático e nem pede desculpa pela sua injustificada ausência.

3 – Uma promessa

Daqui em diante vou ver se ponho aqui duas ou três palavras mais regulares. E até imagens em que tropece nestes dias de Agosto vadio, como deve ser, e que me viu nascer.


segunda-feira, 30 de julho de 2007

Amigos perdidos, onde parais?

Onde é que estás, Anwar Namani? Ainda estás aqui? Ou a desgraça das guerras já te nos roubou?
Que fizeram dessa tua terra mártir do Líbano? Que te fizeram a ti? Ainda abraças a bandeira do cedro, do cedro que é símbolo e diz mais que palavras? Ou a bandeira morreu?
Que fizeram a Beirute, a tua cidade? Que fizeram à rua onde tu moravas, que as minhas cartas nunca a encontraram? Sabes que a cada bombardeamento eu te escrevia? E que a cada ruína de casa abatida eu pensava em ti?
Lembras-te de quando fomos a Madison, no Wisconsin, à universidade, falar dos nossos países, com o Noel Hobbs, o da Nova Zelândia, que foi falar do dele também? Lembras-te como nos saímos tão bem, naquele anfiteatro enorme,que nos assustara, com as respostas que demos: tu com aquela tua história da lua; eu com aquela minha história de chamar a rapariga ao palco para lhe mostrar; o Noel com aquela história sua dos carneiros?
Lembras-te daquele livrinho compacto que me ofereceste, O Profeta, do teu conterrâneo Kahlil Gibran, na versão inglesa em que foi escrito? Lembras-te da dedicatória em árabe que nunca me traduziste, seu malandro manhoso? Sabes que ainda o tenho? E sabes que o consulto? E sabes que nenhuma tradução lhe faz toda a justiça? E sabes que o recomendo?
Não respondes a nada? Não vês que as perguntas não interessam nada? Que as respostas não interessam nada, desde que respondas, seja aqui ou ali, seja isto ou aquilo, seja sim ou não?
Não sou eu que pergunto. Somos todos nós, os que lerem isto, e mesmo os que não. E tu não és tu, antes todos quantos cruzaram suas vidas com as nossas vidas, com evocações de histórias felizes. E com quem fomos perdendo o contacto. Fosse como fosse. Fosse por que fosse. Mas nós lembramo-nos deles. E queremo-los de volta.
Por isso, Anwar Namani, e vós todos quantos, vá de responder:
- Estamos aqui.