sábado, 28 de julho de 2007
Não estamos sós
As estrelas disseram-me poemas secretos de amor e de bem. E falaram-me de vastidões onde me perdi sonhando. Onde me fundi cantando. E soube então que não estamos sós. Porque me reconheci, pequenez sentida, com o seu lugar, na imensidão sem fim, de pequenezas feita.
Não. Não estamos sós. Enquanto existirmos, e se mesmo formos, teremos sempre em nós a bênção sentida dos outros, sem os quais não somos.
Por isso devemos querer-lhes muito e bem. E acordar neles o mesmo desejo de querer muito e bem a outros ainda. E depois a outros. E a outros ainda.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Nem bosque nem melro
Só que o melro foi ele ao insinuar tal desvario. Foi para ganhar tempo, e para irritar quem não tivesse gostado das aves primeiras, isto é, toda a gente. Mas fez-se justiça, que ninguém lhe ligou.
O mal é que agora ele vai mesmo cumprir a promessa. Para se vingar da afronta. Ainda não o fez por preguiça, embora insinue que é falta de tempo.
Aquele velho melro tão especial, que há muito vagueia por entre as folhas dum bosque que é livro, vinha-lhe mesmo a calhar. Ao prazer de cumprir a promessa, juntaria o regalo de uma história galharda. Tudo sem grande trabalho. E poderia até aproveitar-se e dizer-se autor. Um descarado.
Tudo muito bem. Ele sabia o autor e o título do livro e do texto. E procurou. E procurou. Afanosamente. Estante a estante. Esvaziou prateleiras. Pôs montes de livros no chão. Barafustou. Rogou pragas. Proferiu palavrões. Fez responsos vários. Nada.
Foi muito bem feito. Quis irritar, e irritou-se primeiro. Quis facilidades, e encontrou trabalhos dobrados. Para que aprenda.
Agora vai ter que sujeitar-se a um textozeco mal amanhado que vai ter que escrever, e a uma fotografiazeca que vai ter de arranjar. Só por teimosia. Só para incomodar.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Manias do Tempo
Hoje convenceu-se que fazia anos. Só faz um mês, mas está bem. Pediu, insistiu, amuou - queria um e-mail. Só para o calar, arranjei-lhe um. Com o nome dele. Tinha que ser. Está no perfil , evidentemente.
Eu sou culpado daquela mania que ele tem. A do querer despir-se. Um belo dia eu contei-lhe a história do Príncipe Sapo. Ele, estúpido, percebeu tudo mal. Passou a achar-se sapo, naquela convicção palerma de poder vir a ser príncipe. É por isso ele quer despir-se. Mas a seguir eu sei que ele vai querer tirar as peles também. Como o príncipe sapo.
Eu bem lhe digo que, por mais peles que tire, ele será sempre sapo. Mas ele acha-me tolo, e julga-se príncipe a ser, que é que lhe hei-de eu fazer?
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Como nós humanos
As aves com asas, que cantam e voam, gostam, vaidosas, que se apregoem seus virtuosismos cuidados, mas seus descuidos não. E as aves sem asas - porque as esqueceram, porque as venderam, porque lhas ataram, porque lhas cortaram, não cantam nem voam- gostam que as chorem, mas tremem de medo só de pensar que um dia se possa falar dos sonhos que já sonharam, mas agora já não.
Também o pisco e o cuco gostaram que o Tempo lhes falasse dos dotes, mas dos defeitos, não.
Gostaram das fotografias, embora se achem mais bem bonitos; envaideceram-se das cores com que os brindou; ufanaram-se da beleza que ele viu nos seus cantos; agradaram-se de ele os dizer cantos de amor e de vida; riram-se com graça e malícia dos ardores que lhes adivinhou.
Gostaram de tudo. Só houve um senão. Aquela coisa do ninho, de que o Tempo cruel falou insensível. Viram naquilo, cada um a seu modo, e sabe-se lá a razão, insinuação crítica de descuido e defeito. E, sincronizados, apressaram-se logo ali a branquejar qualquer sombra de dúvida.
Acusaram-se de inocentes. Que não tinham culpa. Que era mesmo assim. Era a natureza. Era a tradição. Era o destino. E era condição sua cumprirem estóicos o destino que é seu.
As virtudes sim. Os defeitos não. E a culpa nunca.
São tão humanos, o pisco e o cuco, não são?
E tão piscos e cucos que os humanos são, ou não?
sábado, 14 de julho de 2007
Aselhices
Ele era clicar aqui, ele era clicar ali, ele era clicar acolá, mas nada. Lá aparecia uma roda bem-me-quer que girava e girava, anunciando o carregamento da imagem, mas nada. Nunca aparecia nada. Aparecia sempre a mesma janela onde ele deveria dizer que sim, que queria. Mas ele, nada! Cegueta, limitava-se só a fechá-la. Para ganhar tempo, evidentemente. E aquilo nunca mais andava nem desandava. Como poderia, se ele não dizia que sim, que queria continuar, apesar do aviso? Horas após, lá a colocou, mas no sítio errado. E depois tirá-la?
Lá conseguiu, o coitado. Finalmente. E, quando conseguiu, considerou-se perspicaz. Uma incompetência à prova de bala, é o que é.
Eu bem sei que se ele ler isto vai dizer que não. Que demorou apenas uns minutinhos extra para titular o texto e para titular a imagem. Fez um lindo serviço, lá isso fez!
Já agora, e por falar em titular:
- Ai, cala-te, boca!
- Calada já estou.
- Sua língua de trapos!
- Olha quem falou.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Vou mesmo ficar com elas
Bom dia!
No último texto, Arejando as saias, dei conta de algumas das peripécias por que passei para lhes oferecer O pisco. As minhas hesitações na escolha do texto, primeiro, e na escolha das palavras certas e finais, depois, poderiam indiciar um caso clínico grave, mas dizem-me que não. E eu vou confiar.
Disse, noutro lugar, que esse texto, Arejando as saias, era quase um pedir desculpas pelos dois primeiros textos de Sete Peles Sete Saias. Estavam ambos à espera do esquecimento ou de uma roupagem mais a preceito. Foram descobertos assim como estão, e assim vão ficar. Até ver.
O título, Arejando as saias, prende-se com duas características minhas: obedecer a quem manda, e alguém atrevido me mandou arejar as saias, muito embora eu seja mais de peles; e não ser capaz de abandonar sem dor a peregrinação da pele na sedução da saia, pelo que retomo, arejando, as Sete Peles Sete Saias, não obstante os protestos do tempo. E até porque, ficando nelas os dois prematuros textos que já referi, elas teriam de ficar também.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Arejando as saias
Aconteceu-me ontem. Queria um novo texto para escrever aqui, e até já sabia qual - aquele ali, em forma de poema, amarelecido o papel pelo correr dos dias. Era fácil. Estava decidido.
Arranquei-o da parede onde tem estado pregado com sucessivas camadas de fita adesiva. E só então reparei que esse poema nunca teve título escrito, que para mim não é necessário. Mas para quem o lê, talvez. E o único título que na pressa me vinha era Epitáfio. Imaginem só! Não podia ser.
Fui-me a umas gavetas, autênticos arquivos do caos. Tirei papéis às manadas que fui dispondo pela mesa grande aqui onde estou, e ia pensando: este não; este talvez; este é só apontamento; este tem que ser reescrito; este qualquer dia livro-me dele; este, O pisco.
Também não tinha título, mas ficou, logo ali, a ser ele, O pisco. Tinha três versões, mas não havia problema: uma era rascunho longo, e as outras duas eram iguais e finais. Era o que eu pensava.
E vai daí, toca a transcrever. No fim, reparei que numa versão aparecia no princípio dum verso a expressão Em flores, na outra já era Nas flores, e eu escrevi De flores. De? Em? Nas? A diferença é mínima, mas nem imaginam a diferença que faz.
O pisco é um poema curto e simples que conta uma história. Mas por debaixo dela há outras histórias. Tenham a bondade de o ler no TempoBreve, que me rouba tudo. Ai, este ladrão que me tira a pele e me rouba as saias!