quinta-feira, 5 de julho de 2007

Arejando as saias

Mesmo que já escritos, os textos que fazemos tornam-se canseiras quando os acordamos. Poucos são os que não merecem reparos paternos, principalmente quando os procuramos, para os transcrever, por qualquer razão.
Aconteceu-me ontem. Queria um novo texto para escrever aqui, e até já sabia qual - aquele ali, em forma de poema, amarelecido o papel pelo correr dos dias. Era fácil. Estava decidido.
Arranquei-o da parede onde tem estado pregado com sucessivas camadas de fita adesiva. E só então reparei que esse poema nunca teve título escrito, que para mim não é necessário. Mas para quem o lê, talvez. E o único título que na pressa me vinha era Epitáfio. Imaginem só! Não podia ser.
Fui-me a umas gavetas, autênticos arquivos do caos. Tirei papéis às manadas que fui dispondo pela mesa grande aqui onde estou, e ia pensando: este não; este talvez; este é só apontamento; este tem que ser reescrito; este qualquer dia livro-me dele; este, O pisco.
Também não tinha título, mas ficou, logo ali, a ser ele, O pisco. Tinha três versões, mas não havia problema: uma era rascunho longo, e as outras duas eram iguais e finais. Era o que eu pensava.
E vai daí, toca a transcrever. No fim, reparei que numa versão aparecia no princípio dum verso a expressão Em flores, na outra já era Nas flores, e eu escrevi De flores. De? Em? Nas? A diferença é mínima, mas nem imaginam a diferença que faz.
O pisco é um poema curto e simples que conta uma história. Mas por debaixo dela há outras histórias. Tenham a bondade de o ler no TempoBreve, que me rouba tudo. Ai, este ladrão que me tira a pele e me rouba as saias!

segunda-feira, 3 de novembro de 2003

Diálogos imperfeitos

Diálogos Imperfeitos

- Será que alguém passará por aqui? Claro que sim, que eu já estou a passar.
- E será que, ao passar, vai parar e dar vida a este monte de letras? Claro que vai, que eu já estou a avivá-las.
- E será que esse alguém é alguém? Claro que é, pois eu estou aqui.
- E será que esse alguém saberá parar, saberá viver, saberá amar? Claro que sabe, que eu estou sempre a tentar.
- E será que terá o poder para tal fazer? Claro que tem, mas ele é tão pouco, esse tal poder.
- E será assim tão pouco, esse tal poder? Claro que é, que a tarefa é imensa, e vem do fundo dos tempos.
- E será que esse alguém irá continuar a teimar? Claro que vai, porque eu sou homem, e é tradição os homens lutarem, e o Homem vencer na raiz do sangue dos homens que lutam.
- E será que isso não será somente um puro sonhar? Claro que é, mas o sonhar é ousar, e seja a ousadia nossa companheira.
- E será que existe ainda hoje alguém que pense assim? Claro que há, pois há sempre alguém que não verga a cerviz.
- Deixa-me ir contigo, quero ir sonhar. Claro que deixo, que eu te vim buscar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2003

De novo voltarei a ti

De novo voltarei a ti. De novo voltarei. Baterei as barreiras do tempo e a ti voltarei. Esquecerei o tempo que vou esperar, pois não vou ficar por aqui onde o tempo de espera desespera quem espera. Mergulharei triste, mas com esperança, na escuridão onde não há tempo. E quando voltares saberei que terei de acordar. De novo irei ter contigo. Outra vez te irei namorar. E vou perguntar-te de quem é que gostas, mas só depois de saber que dirás que é de mim. E serei o que quiseres, desde que eu possa continuar a gostar de ti. Chamar-te-ei outra vez minha pequeninha. E também piquilititi. E outras palavras ou sons que tenham a música do amor. Mas não deixarei perder-me de ti. Mas não deixarei que te percas de mim. Subirei se quiseres que suba. Descerei se quiseres que desça. Mas não te vou perder, nem me vou perder outra vez porque isso doi muito. E mata a vida passada. E isso é pior, muito pior , que matar a vida futura.